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Nada é belo

Os olhos do moleque fitavam o alto do Teatro Castro Alves. Olhos pretos e redondos, fixos no alvo, concentrados feito olhos de uma águia em sua presa. Sua mãe estava no chão, enrolada em panos, com outra criança ao peito. Era final de tarde e um vento frio escorregava entre os corpos. Na praça do campo grande as árvores são frondosas, grandes, imponentes feito os prédios e casarões que as cercam. Há uma miserabilidade que convive com o luxo naquele lugar. Tudo é indecifrável. Pessoas bonitas em carros importados passam por ali enquanto velhos e mendigos compartilham generosamente bancos e chão da praça.
Há um peso ali. Uma melancolia, um desalento, uma feiúra.
Eu sentei por algum momento em um daqueles bancos. Junto ao meu pé esquerdo, uma folha seca e amarelada de outono flutuava sobre uma pequena poça d’água. Um senhor, ao meu lado, lia um jornal amassado. O menino continuava olhando pra cima enquanto o outro tentava sugar o leite que a natureza se encarregava de suprir.
Ali tudo é lento. Há um clamor ali. Um clamor de gente miserável que acorda, sobrevive e dorme ali. Uma solidão. Um desamparo.
Começou a chover. Um chuvisco fino e fraco, que deslizava pelas folhas, pelo vidro dos carros, e deixava a calçada brilhando feito as estrelas que mais tarde surgiriam. O céu foi escurecendo. Nuvens iam ficando cada vez mais densas e escuras como que se harmonizando com toda aquela apatia. Um cachorro vira lata latia no meio do asfalto molhado e os carros começaram a buzinar, uma após o outro, impacientes, apressados. A luz vermelha do semáforo agora reluzia com mais intensidade diante da noite que caia.
Fui embora.
No caminho, lembrava dos olhos daquele povo que são sempre olhos que pedem. Sempre um olhar de quem carece de algo. Aquelas crianças de dois ou três anos correndo nuas naquele frio. Aquelas mulheres jogadas no chão. Aquele fedor, aquela imundície. Ecoava ainda em meus ouvidos a gargalhada de alguns homens que bebiam e jogavam dominó. Uma gargalhada solta, ressoante, que no fundo desdenhava das mazelas da vida e comemorava o triunfo de estarem vivos.
Ali, a feiúra vê a beleza e não pode jamais tocá-la. Ambas convivem, mas não se pertencem. Nenhuma das duas suporta uma a outra. Há uma mistura de passado com futuro, de progresso com atraso, de mentiras com verdade, de docilidade com crueldade.
Não. Nada ali é belo.
Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 23/10/2006
Reeditado em 25/10/2006
Código do texto: T271167
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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