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SER LIVRE, SER LIBERTO

"Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos. E sonhos não envelhecem".

(Lô Borges, compositor mineiro)

                Uma das coisas mais importantes, se não for a maior delas, para o ser humano é a liberdade. Liberdade que há na Revolução Francesa, em bom gaulês, ou na Inconfidência, em latim vulgar, aquele latim do povo, da massa e não da elite. Muitas vezes, a liberdade é uma implosão, a periferia desaba em torno do seu centro eqüidistante e equi-iniquo para usar um neologismo inventado neste exato instante.
               E liberdade é uma criança que anda de mãos dadas pelas campinas da vida com outra criança: a educação. Comparo-as com crianças porque é a forma pia de nossas vidas, o alvo de todos nós, mesmo que a velhice nos afaste cada vez mais deste objetivo; criança é sempre
bem-guardada, protegida, curada. Imagino duas crianças, saltitantes, em um bosque cheio de clareiras e jabuticabeiras, Liberdade e Educação, mãos dadas, almas gêmeas e um viver único.
                Talvez o papel do educador seja justamente este: aliar a forma e a substância de nossas aulas a um critério inalienável de liberdade. A escritora Mia Couto nos conta a história de um cego chamado Estrelinho que tinha um grande amigo, Gigito, que além de seu condutor, dava-lhe as formas
e cores de um mundo que Estrelinho era incapaz de enxergar. Porém, Gigito preferia colocar mais cor em suas descrições: as árvores estavam sempre verdes, havia menos asfalto e mais grama em suas descrições. Estrelinho tinha, em suas mãos, a mão de um educador, de alguém que fazia questão de dar-lhe uma visão (?) melhorada de um mundo imperfeito. Embora incapaz de enxergar com os olhos de fibras e humores, via a vida com os olhos da alma. Um dia Gigito foi levado á guerra e sucumbiu nas trincheiras, porém, havia deixada Infelizmina, sua irmã, para que cuidasse de Estrelinho. Na ausência do grande amigo, Infelizmina dava a Estrelinho um a visão mais realista do mundo que os cercava...bastava, agora, a Estrelinho, escolher em qual dos mundo iria viver.
                Neste mundo pós-globalizado, entendo que a maioria da juventude não está dotada do combustível chamado "sonhos" que pode alavancar suas vidas para um futuro bem melhor do que se autoprojetam, e se entregam à mesmice de um ócio pré-aposentadoria, ou seja, eles aposentam a vida antes mesmo de o governo permitir, já na fase sexagenária.
   Muitas vezes, andamos descalços sobre um tapete mórbido de cacos de vidro, incandescentes, que é a própria existência, porém, como líderes, temos que dar o incentivo e dizer aos nossos alunos que vale a pena... Vivemos em um mundo no qual as utopias se dissipam como a neblina foge aos
primeiros raios de sol; a bruma dos sonhos de nossos jovens é tão tênue que não suporta a primeira onda de calor: antes, todos desejavam ser engenheiros, arquitetos, professores (!), enquanto hoje, poucos desejam ser algo para o futuro; desejam apenas que o futuro seja algo para eles.
                Não sou contra a atitude de Infelizmina, de mostrar o mundo cinza, sem emoção, apenas um relatório frio e inócuo do que se vê; acredito que uma boa dose de Gigito e uma pitada de Infelizmina seriam o ideal para os muitos Estrelinhos que permeiam nas salas de aula. É impossível falar de
um caleidoscópio sem se emocionar com a geometria fractal das cores, mas é difícil reinventar alguns fatos inexoráveis, como a dor, a doença e a morte.
                Enquanto o Estado deseja um ensino quantitativo, e se embasa em números para poder corroborar suas idéias, nós, educadores, devemos pensar no lado qualitativo: nós não somos máquinas de ensinar, nem os alunos robôs aptos para o aprendizado. Somos, sim, pessoas complexas e interdependentes; desejosas de conhecer mais sobre o máximo de coisas que se nos apresentem. Apesar de a escola ser um organismo instituído pela força Estatal, não são os donos do Estado que, em última instância, a governa: no fim dos trilhos das relações estatais da educação, estamos nós, com o poder de influenciar e ser influenciados, de criar ambientes com menos cimento e mais sorrisos. Somos nós que recebemos, como em uma corrente elétrica, na ponta do fio condutor, a energia necessária, embora não sejamos a fonte energética, propriamente dita.
                O Estado abriga, a Igreja moraliza, a Família educa e a Escola informa. Talvez esta prática tenha se deturpado com a chegada deste novo século: vivemos em um país cujo Estado constituído não nos abriga em seu guarda-chuva de leis e medidas provisórias, a Igreja, independente de qual vertente seja, sempre há de apresentar suas falhas, a Família, desestruturada pelos pais que trabalham vinte-e-quatro-horas-por-dia e legam às creches e centros de convivência, parentes e amigos, a educação de seus infantes e uma Escola que sofre as dores de um parto sem fim de filhos gêmeos e siameses cujos nomes, ECA e Aprovação Automática, assustam, como um Frankstein sem coração.
                Uma educação libertária e libertadora é do que precisamos. O conhecer, o logos da questão é para uma vida inteira e não para os medíocres 11 anos de educação básica. Se nossos alunos enxergam o mundo apenas por uma janela é hora de nós, educadores, derrubarmos as paredes.

 
Marcelo Lopes
Enviado por Marcelo Lopes em 23/10/2006
Código do texto: T271212
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Sobre o autor
Marcelo Lopes
Guarujá - São Paulo - Brasil, 47 anos
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