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Maria

Maria, aos trinta e dois anos, era uma bonita mulher com os seus cabelos louros lisos, um corpo escultural, olhos castanhos cor de canela, a pele macia e sedosa dum tom suave que fazia lembrar pedras preciosas engastadas num anel de ouro fino.
Era uma mulher moderna, de um gosto irrepreensível e, apesar de não ser rica, vestia-se sempre com muita elegância. Comprava habitualmente poucas peças de roupa, mas sabia escolhê-las com distinção e um toque de arte intemporal, de modo a realçarem-lhe a elegância natural e o bom gosto.
Quando saia à rua era sempre admirada pelos homens e invejada pelas mulheres. Transparecia dela um certo ar de deusa quando se passeava na pequena aldeia serrana onde nascera, crescera e, como tantas outras, casara… O seu maior sonho de sempre era viver na grande cidade. Lá as pessoas não se conheciam facilmente como era o caso da pequena aldeia onde toda a gente entrava na intimidade do seu semelhante.
Naquela manhã Maria saltara, apressada, da cama para o chuveiro. Não tinha dormido bem nessa noite. Levou horas para adormecer depois do encontro que tivera com o Sr. Amaral.

O Sr. Amaral era uma pessoa muito respeitada e bem conceituada na zona. Dono de uma empresa bem sucedida e promissora, dava trabalho à maioria dos habitantes da aldeia. Por isso era muito requisitado para festas e eventos de maior solenidade e destaque.
Maria trabalhava, como secretária, numa pequena empresa e passava por ele todas as manhãs caminhando, a pé, para o seu emprego. Quando se cruzavam cumprimentavam-se respeitosamente. Todavia, o olhar do respeitável Amaral caía sobre ela numa fixação clara e penetrante, à medida que se ia afastando… Mas raramente ela se apercebia e nunca se preocupara em decifrar a intencionalidade desse olhar.

Num belo dia primaveril Maria, inesperadamente, recebeu um telefonema do Sr. Amaral a pedir-lhe que fosse encontrar-se com ele numa vila próxima. Ficou deveras surpreendida com aquele pedido mas não quis negar-se a ir, visto ser ele o patrão do marido. Pensou logo que a conversa teria a ver com qualquer questão de trabalho lá na fábrica. Paulo não lhe falara em nada mas ele, por vezes, era assim mesmo, um tanto misterioso e nem sempre gostava de conversar sobre questões de serviço.
Durante a viagem para o encontro levava o coração nas mãos e questionava-se sobre o que poderia ter feito o marido de errado ou grave na empresa onde trabalhava. Foi esse o único motivo que a sua mente conseguiu criar para justificar aquele encontro.
Casada há vários anos, tinha dois filhos: uma menina com nove anos e um menino de dois. Casou sem amor, porque a mãe achava que o pretendente era o melhor partido da terra e a sua filha merecia ter uma vida confortável. No entender da progenitora o amor viria depois, com o tempo. Maria ainda tentou bater o pé. Debateu-se, revoltou-se contra aquela maternal imposição. Dizia que não casava. Desculpava-se que era muito nova e que alimentava o sonho de sair da aldeia. A mãe, no meio de acesa discussão, acabava por desmaiar, o que levou Maria a ceder á chantagem psicológica, conformando-se com a situação que lhe fora traçada.
Maria nascera numa família simples e modesta. O pai tinha emigrado para França mas, não se adaptando à vida no estrangeiro, regressou para junto da família passados sete anos. Maria, desde pequena, foi ganhando uma enorme cumplicidade com o pai que gerou bom entendimento e compreensão entre ambos. Mas a mãe impunha-se-lhe determinante e desajustada na sua maneira de ser para com ela.

Já na cozinha, enquanto preparava o pequeno-almoço, os acontecimentos do dia anterior continuavam a martelar-lhe a cabeça. Sentia-se envergonhada e não conseguia encarar o marido. Este sentou-se à mesa e ela serviu-o com dedicação, como, invariavelmente, fazia todos os dias. Ele tinha o hábito de humilhá-la mesmo perante outras pessoas. Resmungava pelas coisas mais insignificantes e muitas vezes chegava a casa já com um grão na asa. Mas, aparentemente bem disposto naquela manhã, despediu-se dela com um beijo nos lábios, dando a sugestão para o almoço.
A empregada, entretanto, tocava á campainha. Maria deu-lhe as instruções necessárias, recomendando que primeiro olhasse pelas crianças e depois pelos afazeres da casa. Os filhos eram, desde sempre, a sua prioridade.
Depois de se arrumar e vestir condignamente, retocou o batom e pegou na malinha de mão, dirigindo-se para a porta de saída.”Que dia tão bonito está hoje!”-exclamou - “Que pena ter de ir trabalhar… Mas não sou rica, tem que ser…”- ia dizendo mentalmente, enquanto descia as escadas com uma jovial ligeireza e tomava o caminho habitual, deixando atrás de si um suave rasto de perfume.
Ao longe avistou o Sr. Amaral, homem de 53 anos, profundamente sedutor. Estremeceu, mas já era tarde para evitar o encontro. Cumprimentaram-se, como era habitual, com um simples sorriso e a vulgar saudação do Bom dia!

__Que se passa hoje contigo, Maria? Pareces-me um pouco cansada e mais distraída do que o habitual…-  perguntou-lhe uma colega, olhando para ela com relevante e mal disfarçada inveja.
__Oh, nada, não se passa nada…estou um pouco cansada, de facto…dormi muito mal.

Maria relembrava, na sua mente, o encontro da véspera e isso não deixava de perturbá-la.
Quando chegara ao sítio combinado, um café, ele viera ao seu encontro e, todo sorridente e amável, estendera-lhe a mão.
__Olá Maria! Pensava que já não vinhas.
__Bom dia, Sr. Amaral. E a questão que a vinha perturbando saiu logo numa ansiosa interrogativa: - Passa-se alguma coisa com o meu marido?
__Vamo-nos sentar e conversar calmamente. Não sejas impaciente, fica descansada! Não é acerca dele que eu quero falar contigo.
Já sentados num recanto meio escondido, ele, com ar tímido, depois de ver abrandada toda a ansiedade, acabou por confessar a grande paixão que nutria por ela. Há meses que a sua imagem não lhe saia da cabeça e o acompanhava por todo o lado. Os seus pensamentos iam para ela, como um tormento diário e permanente, até que tinha ganho coragem e arriscado ligar-lhe a marcar um encontro. Maria estava admirada com aquela revelação inesperada e, sem que tivesse tempo para raciocinar, acabou balbuciando com a sensatez que o momento lhe permitia:
__ Sou uma mulher casada e com filhos. O meu marido é seu empregado.
__ Também sou casado, pai e avô. Mas esta paixão tem vindo a consumir-me há meses. Demorei a tomar coragem para te ligar. No coração ninguém manda… Mas, se não quiseres falar, respeito a tua posição e vou-me já embora.
Ela, corando, só conseguiu dizer:
__Fique!

Maria confiou-se a ele e contou-lhe o resumo da sua vida. Falou-lhe do seu casamento. Um casamento sem amor, imposto pela própria mãe que, insistentemente, a pressionara nesse sentido. Ela mesma acabou por acreditar que o amor chegaria mais tarde. Feitios completamente opostos em nada ajudaram. Passavam os anos e Maria sentia-se cada vez mais solitária. Só os filhos lhe davam razão para viver. A família apoiava-a, principalmente a sogra que a compreendia e testemunhava, por vezes, o mau humor do filho. Saiu ao pai – comentava ela.

Ele ouvia-a atentamente. A determinada altura, ganhando confiança, pegou-lhe na mão. Ela estremeceu, assustada, enquanto o ouvia sussurrar docemente:
__Posso fazer de ti a mulher mais feliz da terra. Deixa-me amar-te!
Por momentos não soube o que responder. As palavras não se formavam no seu cérebro nem ganhavam expressão. Aquela hesitação foi suficiente para que Amaral insistisse e continuasse a revelar o grande amor que sentia por ela.
__ Tenho que me ir embora – disse ela.
__Promete que um dia destes vais almoçar comigo. Eu ligo-te para o emprego.
__Não é boa ideia! Tenho que inventar uma desculpa como fiz hoje. Neste momento era no dentista que devia estar.
Despediram-se com um beijo no rosto.
Maria fez toda a viagem de regresso a pensar no Sr. Amaral e nas suas palavras. Ele era um homem simpático, educado e muito atraente. Ela parecia gostar de homens mais velhos. Não considerava a idade um problema, desde que amasse realmente a pessoa. Sonhava muitas vezes, no meio da sua conformada tristeza, que um dia conheceria a força da paixão e do amor. Desejava profundamente encontrar esse amor.

Chegou a casa, ainda o marido não tinha voltado do trabalho. A empregada cuidava das crianças. Beijou os filhos e foi rapidamente para a cozinha preparar o jantar. O marido devia chegar a qualquer momento, impaciente e irritadiço como sempre.
Naquela noite dormiu muito mal. O marido aproximou-se dela tocando-a com desejo.
Desculpou-se dizendo que lhe doía um dente. Nos seus pensamentos secretos imaginava como seria fazer amor com uma pessoa que se ama. Ela apenas se entregava por dever conjugal.

__Estás tão pálida, Maria! O que se passa!? - perguntou a colega.
__Nada. Apenas uma ligeira dor de cabeça, mas já passa.
Os dias iam passando na rotina habitual: trabalho, brigas e medos… Acima de tudo muita ansiedade. O Sr. Amaral não lhe saia da cabeça. Mas nada se alterara no comportamento deles. Sorriam e cumprimentavam-se com o quotidiano bom dia sempre que se cruzavam na rua.

 Certa manhã estava ela no trabalho a tratar de um assunto muito urgente quando o telefone tocou: era o Sr. Amaral.
__Amanhã queres ir almoçar comigo? Espero-te no mesmo sítio. Iremos a um lugar lindo.
Maria lutava contra ela própria, não sabendo o que responder. As colegas olhavam-na com apreensão e ar interrogativo. Tentou manter-se calma e, aparentando um ar natural,
acabou por concordar. Na ocasião era-lhe impossível replicar porque estava rodeada de colegas e não convinha que elas desconfiassem de nada.
Em casa deu uma desculpa convincente. Tinha que voltar ao dentista.
Faria por estar em casa antes do marido chegar do emprego. Os miúdos ficariam entregues à empregada que os tratava bem. Era uma mocinha de confiança.

Amaral guiava o seu carro descapotável, a alta velocidade, em direcção ao Alentejo. Maria estava a gostar da forma culta, educada e inteligente como ele a tratava. Sentia-se uma princesa.
O restaurante ficava numa enorme varanda aberta sobre a planície alentejana. Durante o almoço ele experimentou alguns jogos de sedução que agradaram bastante a Maria. Sentia-se bem ali com ele. Quase se esquecera das realidades da vida...
Às tantas olha para o relógio e vê que já são três da tarde! Estou tão longe de casa! - pensou de repente - quase assustada e nervosa. Não sabia o que poderia acontecer a seguir…
__Sr. Amaral, estou a adorar estar aqui consigo, mas temos que regressar. Tenho que chegar a casa antes do meu marido.
__Maria, trata-me apenas por Carlos. Não me faças sentir um velho de oitenta anos.

No regresso a casa o carro descapotável voava. Quando Maria saiu para tomar o autocarro que havia de levá-la até à aldeia, Carlos Amaral olhou-a nos olhos e disse:
__Foi um prazer esta tarde, Maria …. Eu gostava de….
__...Diga….
__Gostava de te convidar novamente para almoçar ou jantar. O que me dizes…?
“O que hei-de eu fazer…”  Sentia-se dividida….
__Dá-me esse prazer….A menos que não tenhas gostado do nosso passeio…
Ele era encantador. Um cavalheiro. Como poderia ela resistir!?
__Sim, aceito. Mas deixemos passar umas semanas para não dar nas vistas.

A caminho de casa, já sentada no autocarro, Maria meditava na costumada arrogância de Paulo….
Como ele era incapaz de gestos bonitos e românticos….
Como ele só pensava em si mesmo, nos seus gostos, no seu próprio prazer… Carlos, por sua vez, era tão delicado, tão educado, tão culto!... Parecia uma personagem de um filme. Ou o galã de um romance…

Duas da manhã. Maria passeia pela sala, incapaz de conciliar o sono. “ Será que fiz bem?” - pergunta-se. Mas nenhuma resposta adequada lhe acode à mente.
A noite estava quente. Ela, porém, não se incomodava. Nem notava o calor. Revivia apenas os belos momentos passados com Carlos. Sentia-se tentada a esquecer todos os obstáculos, todos os problemas que se interpunham entre os dois.
Farta de rodopiar pela casa, deitou-se sobre os lençóis. Sentia-se cansada, esgotada, e infinitamente triste….

Passaram trinta dias sem que Amaral voltasse a ligar. Maria não sabia mais o que pensar. Só tinha aquela certeza: ele era dono dos seus pensamentos.
Amaral vivia uma invulgar desorientação. Onde quer que estivesse, fosse na empresa ou no ambiente familiar, a imagem de Maria não lhe saia do pensamento. Mas impunha-se que resistisse a essa obsessão. Valeria a pena tanto tormento?
Numa segunda-feira, ao cruzarem-se na rua, ele acrescenta ao habitual cumprimento:
__Quarta-feira, no mesmo sítio.
Ela acenou afirmativamente com a cabeça enquanto prosseguia a caminhada.

O Mercedes rodou em direcção ao Alentejo. Antes de chegar à cidade de Portalegre havia uma pousada donde se vislumbrava uma paisagem soberba.
__Queres entrar aqui? Podemos almoçar e descansar depois do almoço. - Sorria com algum atrevimento.
 Ela olhou-o nos olhos e viu acender-se nele o desejo.
Com um gesto silencioso abriu a porta do quarto e convidou-a a entrar. Os dois fitaram-se durante algum tempo pressentindo o desejo que entre eles ia crescendo. Depois aproximaram-se e as bocas de ambos entregaram-se à urgência da descoberta mútua. Sem nunca deixar de a beijar, Amaral pegou em Maria ao colo e levou-a para a cama. Deitando-a, desapertou-lhe o fecho do vestido com toda a suavidade e, de seguida, iniciou o lento deslizar das mãos pela pele arrepiada do belo corpo daquela mulher. Maria sentia-se enlouquecer com aquele toque quente e sensual. Libertando-se de todos os preconceitos, deslizou sobre Amaral e conduziu o seu membro erecto para dentro de si. Depois sentou-se sobre o seu corpo ansioso e amou-o assim mesmo, provocando uma plenitude de prazer que a ambos fazia enlouquecer.

Os encontros clandestinos entre Maria e Amaral estavam a tornar-se cada vez mais frequentes. Constavam, como se compreende, de pequenas aventuras em diferentes locais. Após cada acto de prazer partilhado, eles iam-se habituando a ficar cada vez mais tempo um com o outro, falando das coisas mais comuns do dia-a-dia, trivialidades sobre o trabalho ou a família.
Por vezes Carlos sentia-se inseguro e ciumento. Tinha medo de perder Maria.
Haviam decorrido seis meses a viverem numa doce loucura. Estavam apaixonados um pelo outro. Na aldeia já se comentava que o Sr. Amaral tinha uma amante. Dado ser uma pessoa muito conhecida estranharam avistá-lo acompanhado fora das redondezas. Sorte dela que ninguém ainda reconhecera a companheira do empresário. O marido de Maria também comentara com ela. Na empresa vinha-se falando acerca do caso do patrão. Maria sentia o coração apertado e pensava que teria de contar ao marido antes que a bomba rebentasse na aldeia.
E um dia, há sempre um dia, o deslize aconteceu.
Maria entrou no carro de Amaral em plena aldeia pensando que ninguém os veria. Mas tal não aconteceu. A empregada do posto médico local resolvera ser pontual e presenciou a cena.
Nesse mesmo dia ela resolve contar tudo ao marido. Fá-lo com frontalidade e disfarçada coragem, revelando o que estava acontecendo entre ela e o patrão dele. Paulo não queria admitir nem acreditar no que ouvia. Maria apenas lhe disse:
__Tu sabes bem que casei contigo sem te amar. Nestes anos tu não soubeste fazer com que eu te amasse. A nossa vida como casal tem sido um inferno. Perdoa, se puderes! A verdade é que amo aquele homem.
Perante esta inesperada revelação, Paulo não pode evitar as lágrimas e pediu á mulher que reflectisse bem e pensasse nos filhos que ambos tinham. Ele amava-a muito e não a queria perder. Ela era a mulher da sua vida. Suplicou-lhe veementemente que não o abandonasse nem aos filhos. Prometeu-lhe que, a partir daquele momento, seria um bom marido. Iriam para a cidade, como ela sempre sonhara. Promessas e mais promessas… Pressionada pela família, Maria cedeu e resignou-se, aceitando as propostas do marido.

O escândalo rebentou! Na aldeia não se falava de outra coisa. A cada canto era comentado e criticado o caso do Sr. Amaral com a mulher de um dos funcionários. Mulher nova e bonita! - Ela quer é o dinheiro dele. Sem vergonha, tem idade de ser sua filha. Aliás, é da mesma idade da filha mais velha do Sr. Amaral. Quem diria!... Um homem tão bom… Bem me enganou. E ela? Com dois filhos e o marido, um bom partido.
As notícias corriam de vento em popa. Amaral, insultado pelas filhas e mulher, assim como pela restante família, deixou que semeassem a dúvida no seu coração. Refugiou-se temporariamente na sua casa de férias no Algarve. Não teve coragem de se comunicar com Maria, deixando-a sem noticias. Paulo, o marido de Maria, despediu-se da firma. Ela não teve coragem de enfrentar os patrões nem as colegas. Disse adeus aos familiares e rumou à cidade com o marido e os filhos.
Passaram meses sem que voltassem à aldeia. Dormiam em quartos separados. Precisavam de tempo para meditarem sobre o que realmente queriam fazer das suas vidas.
Decorridas três semanas Amaral corre, como louco, atrás de Maria procurando-a por todo o lado. Encontra-a, por acaso, numa esplanada frequentada.
__Maria …Eu não acredito!
__Nem eu….!
Abraçaram-se. Ela sentiu o seu corpo estremecer com o abraço forte e suave dele…Um abraço que já conhecia tão bem.
Amaral explicou-lhe a sua fuga para o Algarve. Sozinho, sem pressões, achava que tinha encontrado a solução.
__Vou pedir o divórcio! Não posso viver longe de ti. E tu o que pensas fazer? Vais continuar a viver sem amor?
__Eu amo-te muito! É contigo que quero passar o resto dos meus dias. Falarei com o Paulo para resolvermos tudo a bem. Ele vai compreender que é o melhor para todos.
__Vamos para o Algarve agora? Estou com muitas saudades tuas.
Maria ligou ao Paulo explicando que tinha encontrado Carlos e que iria com ele para o Algarve passar dois dias apenas.
Antes de partirem passou por casa. Despediu-se dos filhos que ficavam ao cuidado da empregada. E os dois amantes lá foram, rumo ao Algarve, na ânsia de saciarem a fome que, de há muito, sentiam um pelo outro.
Pelo caminho Carlos saiu da estrada e entrou numa pequena floresta.
__Aconteceu alguma coisa com o carro? – perguntou ela, estranhando o desvio.
__Não, minha princesa. Quero simplesmente amar-te neste momento.
Embora não fosse fácil movimentarem-se dentro do carro, Maria estava já no lugar do condutor, com o seu corpo escultural em cima de Carlos, sem outro intuito que não fosse a posse total e completa. Carlos agarrou-a. As suas mãos grandes quase abarcavam a sua cintura e começaram a movimentar-se agressivamente. Antes nunca tinham experimentado tal estado de fervor. Passaram para o banco detrás e despiram-se. Ficaram completamente nus dentro do carro sem se importarem que alguém passasse e os visse. Já não havia mais tempo para raciocinar. Estavam a viver a melhor experiência sexual das suas vidas.
Já no Algarve, instalados num hotel de cinco estrelas, os dois amantes faziam projectos para o futuro. Carlos saiu, por momentos, reaparecendo escondido atrás de um ramo de flores. Passou-lhe as flores para as mãos e ficou a olhá-la com uns olhos profundos e castanhos, brilhantes, no fundo dos quais transparecia uma ponta de tristeza.
__Desculpa - disse ele - enquanto, lhe tomava a mão, nervoso como um adolescente. Desculpa ter-te abandonado numa altura em que mais precisavas de mim.
As bocas de ambos aproximaram-se e colaram-se uma à outra com uma intensidade tão grande como se estivessem esvaídas de sede.
__Maria….Tu pões-me louco…..
Ela colocou-lhe um dedo na boca, como que a dizer que não eram precisas mais palavras. E deixou que a boca dele lhe percorresse o pescoço. Sensualmente… devagar…
Chegada a casa, Maria informou o marido sobre a resolução que havia tomado em relação à sua vida futura. Dos seus planos constava um divórcio amigável e propunha que ela e os filhos pudessem continuar a morar com ele na mesma casa até que Carlos ficasse livre. Depois, ela e os filhos iriam viver com ele. O Paulo, por sua parte, poderia, sempre que quisesse, ir visitá-los.
O marido ainda insistiu para que Maria pensasse bem no que realmente queria. Segundo ele, Carlos não era homem em quem ela pudesse confiar. Ele conhecia bem a sua têmpera. Maria não deu ouvidos a Paulo, acusando-o de estar a falar por despeito.
Dias passados, a mulher de Carlos chegou a deslocar-se até à casa da sogra de Maria pedindo que esta falasse com a nora e a convencesse a deixar o marido em paz. Ao mesmo tempo insultava a rival e acusava-a de ser a culpada do fim do seu casamento. A sogra não lhe respondeu nem quis ouvir os queixumes dessa mulher. Limitou-se a convidá-la a sair de sua casa.
Já nessa altura a sogra de Maria encontrava-se muito doente. Pouco depois, no seu leito da morte, pediu para ver a nora. Sempre se haviam entendido bem e gostavam muito uma da outra. Pegou-lhe na mão, apertando-a com força e sorrindo. Passados dias morria.
Ao fim de alguns meses Maria obtém a liberdade conjugal e entrega ao marido os bens que ele exigira para ficar livre dos laços matrimoniais. Carlos, porém, teve de enfrentar um divórcio litigioso que levou mais de dois anos a ser resolvido e terminou com a entrega de uma pequena fortuna á mulher.
Logo que ambos ficaram livres foram morar para um luxuoso apartamento. A empregada dela foi com eles.
Carlos dividia o seu tempo entre a cidade e a aldeia serrana onde mantinha a empresa em sociedade com um irmão. Por vezes ausentava-se por oito dias seguidos. Quando chegava junto de Maria mergulhava no seu corpo quente e apetitoso. Faminto de saudades, saciava a fome do desejo. Passado algum tempo, sempre que ficava ausente, regressava cada vez mais inseguro e isso começou a provocar discussões entre os dois. A semente da dúvida germinara e reproduzia-se. Nunca, porém, deixava de trazer presentes a Maria. Tinha, no entanto, o cuidado de não lhe dar grandes valores, não fosse ela deixá-lo.
Maria preenchia o seu tempo fazendo compras e frequentando o ginásio. Não se descuidava com massagens e tratamentos que a pudessem manter bela e jovem, de maneira a continuar a agradar a Carlos. Mas vivia como um pássaro numa gaiola dourada. Era controlada por telefonemas inesperados e a diferentes horas do dia e da noite. A empregada elaborava diariamente um relatório pormenorizado sobre como a patroa passava o dia a dia. Poder-se-ia mesmo dizer que estava à mercê desta e do seu relatório informativo. Mesmo assim sentia-se feliz com a vida que levava. Estava perdidamente apaixonada por aquele homem que a levara a alterar todos os seus hábitos antigos. Aonde fossem eram olhados como um casal muito apaixonado. Chegaram mesmo a tratar dos papéis para se casarem. Todavia, durante uma das muitas discussões que se haviam tornado frequentes, Carlos desculpou-se com a informação de que as filhas não aceitavam o enlace. Chegou até a acusá-la de querer dar o golpe do baú. Maria, ferida e irritada, rasgou os papéis. Até hoje guarda o vestido de noiva que tinha adquirido, um verde lindo cor de mar.
Num belo dia, à saída do ginásio, Maria apercebe-se que alguém a segue. Carlos tinha contratado um detective, só podia ser. Em casa põe-lhe essa questão com toda a frontalidade. Ele não nega a evidência. Confessa-lhe que a família e alguns amigos insistem em afirmar que, além dele, ela tem outra pessoa. Maria não sabe o que pensar. Seria Carlos tão cruel ao ponto de lhe infligir tamanha humilhação? A cabeça de Maria rodopiou por entre pensamentos descontrolados e só lhe apeteceu fugir dali. Sentia-se, finalmente, farta e desiludida! Pela primeira vez perdeu a cabeça e gritou com ele:
__Eu nunca te traí. Amo-te muito. Se não acreditas em mim, vai-te embora.
Ele também amava aquela mulher. Sabia-o no seu íntimo. Mas os ciúmes cegavam-no e já não sabia como se controlar para não a magoar.
Carlos atirou-a bruscamente para cima da cama, despindo-a com sofreguidão. A mera visão daquele corpo moreno e lindo deixava-o excitadíssimo.
__Beija-me, Maria. Perdoa-me! Prometo controlar os meus ciúmes.
Mas Carlos não tinha mais domínio sobre si e as suas dúvidas. Vivia obcecado e inseguro, trazendo sempre consigo uma pistola.
Maria passou a suavizar a sua amargura com calmantes. Nos momentos de maior tristeza e desânimo pensava consigo: Já posso morrer. Conheci e vivi um grande amor, uma paixão sem limites. Nada mais tenho a fazer neste mundo.
Desiludida e em final de desespero, Maria só passou a desejar a morte. Mas, quando se sentia pronta a embarcar na grande viagem, lembrava-se dos filhos que lhe diziam: Mamã, não nos abandones.
A empregada chorava abraçada a ela, pedindo-lhe que tivesse coragem e saísse daquela apatia.
Maria deixou-se tomar por uma grande depressão enquanto Carlos cada vez mais se afastava. Só aparecia de quando em vez, sem avisar.
Um dia chegou a casa e não a encontrou. Ficou como louco, pensando que ela o tinha deixado. Estivera quinze dias sem vir a casa e sempre que Maria ligava para ele não atendia. Saiu, então, percorrendo, desvairado, as ruas da cidade. Acabando por encontrá-la, ordenou-lhe:
__Entra no carro!

Arrancou a alta velocidade, deixando a cidade para trás. Já fora, nos arredores, entrou num pinhal e obrigou-a a sair do carro. Sem mais, rasgou-lhe as roupas. Maria gritava para que ele a deixasse, reafirmava, ao mesmo tempo, que nunca o tinha traído. Ele, porém, cego de ciúmes, batia-lhe sem atender aos seus gritos. Por fim abandonou-a no meio do pinhal toda machucada e cheia de lágrimas.
Passado bastante tempo Maria pôs-se a caminho de casa. A distância ainda era muita e teria que percorrê-la a pé naquele lastimável estado. Pediu boleia a um carro que passava e parou para levá-la. No meio de lágrimas e sofrimento, Maria contou o sucedido ao condutor do carro.
Ao chegarem a casa já lá estava Carlos que, vendo-a descer do carro, começou a maltratá-la. Mas a única preocupação dela era ver os filhos e correu para dentro a saber como se encontravam.
O sujeito que a trouxe até casa limitou-se a dizer: - Encontrei-a na estrada num estado lamentável. Se fosse a ela fazia queixa de si.
Entrando em casa, Carlos pediu-lhe desculpa. Mas a magoada Maria, no seu desespero e humilhação, apenas conseguiu gritar:
__És um psicopata! Vai-te embora. Desaparece da minha vida.
E Carlos foi. Passado um mês voltou. Entrou em casa quando os miúdos já dormiam. Maria, contudo, estava ausente. Deitou-se à espera dela. Maria só chegou por volta da meia-noite e ficou perturbada ao ver Carlos adormecido na sua cama. Cautelosa e mansamente consegue tirar-lhe a pistola que ele trazia e esconde-a.
Acordando, Carlos pergunta-lhe:
__Onde andou que não estava em casa? E, notando a falta da arma, acrescenta: - Não precisavas de esconder a pistola. Nunca te mataria.
Levantou-se, pegou na pistola e saiu.
Maria passou a telefonar-lhe todos os dias sem que ele atendesse as suas chamadas. Quando ligava para a firma a secretária apenas informava em tom sarcástico: o Sr. Amaral manda dizer que não está para a senhora.

Passaram dez anos desde então. Maria vive ainda com aquela espinha atravessada na garganta. Quando Carlos fez 71 anos ligou a dar-lhe os parabéns. Ele não a reconheceu. Ela, anonimamente, pediu-lhe para que se encontrassem.

 Maria, agora mais madura, continua a ser uma mulher atraente e muito sensual. Ao entrar no café, onde combinaram o encontro, ele já se encontra sentado a uma mesa, olhando em todas as direcções. Ela aproxima-se lentamente. Tira os óculos de sol e fita-o de frente:
__Boa tarde, Sr. Amaral! Como está?
__Maria!... - O espanto é natural e vigoroso.
__Não tenha medo. Nada quero de si. Estou aqui apenas para dizer-lhe que deitou a felicidade fora por causa dos seus ciúmes doentios e infundados. Hoje encontra-se voluntariamente só. Eu nada mais posso dizer senão que o amava e estava disposta a passar o resto da minha vida consigo.
Carlos Amaral olha-a como uma doce lembrança que nunca deixou de estar presente na sua vida. Abre e fecha as pálpebras por diversas vezes, como se quisesse ligar o passado ao presente e, soltando um suspiro profundo, articula estas palavras:
__Maria, perdoa-me!

Ela levanta-se deixando no ar um rasto de perfume. Aquele perfume de mulher torna-se único e inconfundível. Carlos conhece-o bem.
Então, pela primeira vez, uma lágrima de arrependimento desliza pelo rosto daquele homem vitorioso e quase totalmente realizado. No seu pensamento prático há agora uma penosa inscrição de entendimento tardio: O meu grande erro foi não ter conseguido ser eu próprio mas sim aquilo que os outros quiseram que eu fosse.
Isa Castro
Enviado por Isa Castro em 23/10/2006
Código do texto: T271838
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