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ESTILHAÇOS DA REALIDADE


Final de novembro de 1998, condomínio fechado da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Estranho o movimento na saída da pré-escola: muitas crianças agrupadas, adultos apressados, muitos carros e algumas viaturas policiais. Na entrada, sou avisada que a creche está interditada. Como fechada? E minha filha? O homem assustado responde rapidamente que o prédio foi esvaziado, só os policiais...
Corro os olhos pela rua e sou assaltada pela realidade. Caminho entre os grupos e tento reconhecer minha pequena. O coração acelerado e as pernas trêmulas dão lugar à necessidade de manter a serenidade. Em pouco tempo, encontro Barbarella sentada no meio-fio junto com os coleguinhas de turma.
Ela corre ao meu encontro. Fala demais, mescla o riso com  o olhar perdido. Não sabe o que está ocorrendo, mas sente a gravidade. Com dois anos e meio já conhece o significado de insegurança... A professora esclarece o tumulto: houve uma denúncia de bomba e a equipe especializada desocupou o prédio como medida de segurança, mas até aquele momento não encontraram a bomba...
No caminho de volta, tento disfarçar o choro enquanto Barbarella mostra toda a ansiedade decorrente da experiência. “Uma bomba!”, “Uma tia chorou...”, “Esqueci minha mochila”, “Homens grandes”... Suas palavras costuram uma história que minha maturidade não consegue entender. Uma bomba numa escolinha de maternal e jardim. Por quê? Quem?
“Manhê, bomba é aquilo que explode?”
A denúncia não se concretizou. Não acharam o artefato. Muitos foram os motivos especulados. Alguns afirmavam que era uma forma de mostrar a vulnerabilidade da classe média, apesar de encastelada em condomínios seguros; outros reduziam à índole má do homem – é pura maldade. A vivência sequer foi noticiada, apagou-se na memória dos que sofreram o choque de realidade. Contudo, até pouco tempo minha filha sentia medo de homens fardados, pois, para ela, eles eram os “malvados” que invadiam escolas e retiravam as crianças com pressa.
As recordações se estilhaçam na realidade. Somos alvos fáceis.
O desespero estampado nas faces das crianças resgatadas em Beslan na Rússia, as explosões e o nervosismo dos soldados na invasão da escola detonam as emoções que vivi quando era apenas uma denúncia despropositada e cruel. As horas passam em torturas e vigílias. Somos informados das negociações, dos reféns libertados, das explosões e das mortes. Nos noticiários, outros ataques e explosões são divulgados diariamente no mundo com vítimas inocentes. Matar já não é um interdito. Transgredimos quando insistimos numa visão utópica da natureza humana.
Alvos fáceis! Somos todos reféns da insegurança e do medo!
Como entender um grupo de mulheres e homens que ameaçam e torturam crianças numa escola para chantagear as autoridades? Terroristas que exigem a retirada de tropas e a libertação de prisioneiros ao tempo que torturam e criam territórios minados pelo trauma de sobreviver num mundo tão irracional na mente de cada refém.
Crianças, percepções inaugurais, primeiro dia de aula, expectativas... O que pode ser mais sagrado do que a infância?
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 23/06/2005
Código do texto: T27187
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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