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DIREITOS HUMANOS


Os quatro corpos expostos, fotografados, explorados nos retratos trágicos da vida contemporânea, despertam-nos de uma aparente realidade com a brusca compreensão de que vivemos em redomas opacas. Acreditamos na abolição de tantas perversões, mas somos alcançados pela escravidão do homem, pelo degradante trabalho de sobreviver, pela vulnerabilidade de permanecer...
Quatro homens emboscados enquanto fiscalizavam o agenciamento e a contratação de mão-de-obra em condições aviltantes nos campos distantes das capitais de estatísticas e de verdades. Rotinas encarceradas nos arames farpados dos modernos campos de concentração.
O suor escorre nas faces tão marcadas e descansa nas páginas da história em que guardamos as falsas certezas. A moderna perspectiva, que nos deixa dormir e acordar, de repente silencia os quatro homens e rasga o silêncio dos milhares de trabalhadores rurais presos à escravidão e à vida de miséria e vergonha.
Horizontes distantes... Tantas organizações de direitos humanos gritam os direitos violentados... Horizontes distantes... Os quatro corpos são enterrados com honrarias, milhares de trabalhadores permanecem nos campos, concentrados na possibilidade de sobreviver...
O jovem médico iraquiano, Salam al Obaide ou “Dr. Guevara”, denuncia mais uma redoma opaca, numa brilhante entrevista concedida ao jornalista Sérgio Kalili, publicada na revista Caros Amigos de janeiro. Estilhaça as verdades da guerra, o nacionalismo do povo vencido, a irracionalidade dos saques, a infância mutilada de futuro, a velhice abandonada numa maca qualquer, o descaso de muitas organizações...
Longe do domínio dos vencedores, com lágrimas nos olhos, lembra de duas meninas que atendeu após terem sido atropeladas por um tanque de guerra e presenciado a morte dos pais. Guarda em si ainda a sensibilidade à dor e ao abandono.
Horizontes distantes... Tantas notícias veiculadas sobre a ocupação e a prisão do ditador... Horizontes distantes... Os ideais do médico estão sepultados nos escombros de um hospital sem antibióticos e anestésicos e, ainda assim, com as condições mutiladas, ele mantém a força da língua afiada e denuncia...
Hora do almoço. No Café em Curitiba, uma jovem cantora conta suas vivências no primeiro mundo. A dura vida dos imigrantes fadados aos trabalhos braçais. Há cinco anos, ela deixou o Brasil com a perspectiva de uma vida melhor. Pensou no reconhecimento do seu talento, no esforço para construir uma carreira sólida, nas fronteiras a serem desbravadas... Voltou e, distante do horizonte desenvolvido, aponta com a falangeta do dedo decepada, seu acidente de trabalho num açougue norte-americano.
Ela não assinou os papéis para a indenização. Acreditou que seu patrão iria ser seu passaporte para a cidadania no primeiro mundo, por ironia, um “balsero” cubano já cidadão americano... Grandes expectativas que se perdem em mar aberto. Ela não conseguiu chegar em terra firme...
Horizontes distantes... Os médicos passam e perguntam se é cidadã... Três horas deitada numa maca sem anestesia... Horizontes distantes... Voltou anos depois, nem mais rica, nem mais pobre, tão brasileira quanto antes...  O dedo mutilado grita sua exclusão, mas não toca mais seu violão...
Pequenos fragmentos podem ser a interpretação de nossa cegueira. O mundo exposto como acontece. Os direitos humanos que navegam em tantas perspectivas, distantes dos horizontes de realidades. Os direitos à vida, à dignidade... Estilhaços de um espelho empobrecido de compaixão e de empatia.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 23/06/2005
Código do texto: T27194
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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