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VENDENDO SAÚDE


“Mas, senhor Ronaldo, é uma oportunidade imperdível, pode ser sua última chance!”
O homem desligou o telefone com os ombros caídos e os olhos arregalados. Caminhou até o escritório e tentou, em vão, distrair-se com os livros. Foi à janela e buscou o horizonte, quis ter certeza de que ainda estava longe da derradeira linha, mas o céu estava nublado. Perdeu-se nas cinzas nuvens, nuvens que não chovem nem saem de cima.
O dia estava fadado à repetição das últimas palavras da impessoal vendedora de seguro de vida. Insistente, ela iniciou com um discurso vencedor de que seu nome havia sido sorteado no banco para ser o privilegiado com um seguro de vida com enormes vantagens, continuou discursando sobre todas as possibilidades de sinistros e encerrou categórica, profetizando talvez a última chance.
 “O que significava exatamente última chance? A possibilidade de oferta ou de procura?”
O homem despertou de suas inquietações com um novo toque do telefone. Correu para atender, sua filha estava no nono mês de gestação e estavam todos sob alerta, mas...
“Senhor Ronaldo, esqueci de avisar que o plano não tem carência para os sinistros discriminados no anexo 1. Em caso de morte por acidente, o ressarcimento é integral e, se for por doença preexistente, o banco se responsabiliza com as despesas de traslado do corpo até o local do enterro.”
O homem negou de todas as formas. Disse que não tinha interesse, pois já tinha seguro de vida vinculado à conta corrente, que estava sem dinheiro e que morto não teria necessidade de dois ressarcimentos. O tom de sua voz ia assumindo novos contornos, altos e baixos, enquanto tentava com sofreguidão convencê-la que não estava necessitando de seguro. Abriu suas contas para a desconhecida e até confidenciou que tinha uma pequena poupança para qualquer emergência.
Suas palavras perdiam-se nas ligações possíveis. A vendedora, com a voz tranqüila e segura, continuava sua narrativa. Muitas informações costumam persuadir os surpreendidos com uma oferta tão recheada de cifrões.
Sem conseguir contradizer todos os argumentos da preparada vendedora, o homem ficou de pensar. Marcaram o horário para um novo telefonema e a moça encerrou a ligação com mais uma proposta:
“Se o senhor firmar o seguro conosco, ganhará de bônus a ornamentação do velório no caso de sinistro de morte do anexo II. Pense bem, Senhor Ronaldo é a última chance!”
O homem colocou o fone no gancho com raiva e ficou por alguns instantes parado com a cabeça baixa e apertando as mãos com força.
“O mundo está carente de sensibilidade. Ela devia se preocupar em segurar a empatia e não os inúmeros seguros e sinistros possíveis. Liga para minha casa; deixa evidente que estou nas últimas; insiste com seu texto pronto; ameaça com a última chance, e ainda me oferece a ornamentação de meu velório como um bônus, como se ninguém fosse me mandar flores...”
O homem caminha pensativo de volta à janela. As nuvens já estão se dispersando. Consegue ver o horizonte distante...
“Como posso ser tão constrangido em minha casa? Estar tão impotente diante do discurso impessoal de uma profissional de televendas?”
O telefone recomeça a tocar. O homem atende com receio, mas liberta as leves nuvens das grades dos plúmbeos sinistros profetizados com o riso emocionado e os olhos marejados de brilhos.
Sua filha... É o alerta de um choro infantil.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/06/2005
Código do texto: T27308
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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