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O MENINO, A CHUPETA E O PANO

Pequena alma perdida na rua iluminada. Parede branca , chupeta na boca  enrolada em um pedaço de pano  na cintura. Não tem nome bonito como Gavroche, Tiago, Romão ou Lucas . Talvez até nem nome tenha. Vaga na rua á procura de  alguém que não vem , que já foi , que deixou com ele a chupeta  e o pano enrolado  na cintura .Esquecido , perdido na rua vazia . O sono chega pesado, o estômago  ronca , mas ele não sabe falar , não sabe pedir , explicar. Ele só sabe gritar e chorar. Mas na rua iluminada  não há ninguém para ouvir. Só; quem sabe; os moradores do outro lado deste muro branco , de portão de ferro  e cruz no alto da porta. Não conhece, não sabe, sequer imagina  que atrás  da parede branca dormem pessoas  que não fazem mais parte das preocupações do Estado , que tiveram  seu último registro para as estatísticas quando morreram . Agora são  preocupação da Policia e pranto dos entes que aqui ficaram. Mas eles estão lá  , sentados no alto do muro do cemitério , velando o sono  do pequenino. Só as crianças os vêem , pois  dizemos que é pura superstição  falar e ver mortos. Mas podem estar certos, que eles velam o sono do pequeno. O pequeno procura pelos pais, especialmente a mão . Mater Dolorosa, Mater  Matrix, Mater  Nutrix , Mater Abandonada. Deixou-o ali , da mesma forma que em tempos idos deixavam na Roda dos Enjeitados. Quem sabe alguma alma boa, caridosa  o recolha e o adote, dando-lhe melhor vida do que aquele que nos seus maiores e mais fantasiosos sonhos sequer pensou. Ou o pior ,  deixou o pequeno  em sua fragilidade  e inocência  por ordem de seu homem  que não admite filhos e lhe enche de porradas  todas as vezes em que menciona uma gravidez. Ou o que seria pior pensar , que ela tenha deixado ali  por ser mais um estorvo em sua vida , que é  curta e que ela , afinal , merece viver .
A criança com chupeta  e pano na cintura dorme. Pode  estar sentindo  as leves mãos  de milhares de homens e mulheres  que velaram por ele  até chegar o guarda , que o levou ao hospital , deu-lhe de comer e roupas .
Salvo finalmente o pequeno de chupeta e  pano enrolado na cintura. Mais uma história desta louca e maravilhosa  cidade e os habitantes que a habitam.    
grotius
Enviado por grotius em 25/10/2006
Código do texto: T273534

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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