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Diário número 02

Viajava não muito confortável, sentado no banco alto que se destacava por estar em cima da roda dianteira. Devido ao balanço do ônibus, mal conseguia escrever, além do que, eu estava sentado no canto, perto da janela, a qual se encontrava a altura do meu ouvido. Como chovia as janelas permaneciam fechadas, com isso o ar era insuportável, sufocava, oprimia os corpos que começavam a suar. Procurando amenizar um pouco o calor, eu abria e fechava a janela evitando não me molhar. Dessa maneira a viagem transcorria. O ônibus lotado, os falatório, o burburinho, as reclamações, os papos furados, tudo contribuía para aumentar ainda mais o desconforto. Ao meu lado, quieto, viajava um rapaz franzino, não muito magro, cabelos pretos assentados, pele morena puxado para um amarelo escuro, há um bom tempo estava ao meu lado. Em pé, no corredor, encostado ao rapaz, ia uma senhora de idade, cabelos grisalhos, feições definidas em traços característico a sua idade, onde se percebia a beleza de um brilho peculiar. A todo momento a pobre senhora caía por cima do rapaz, por que as suas costas, as pessoas ao passarem empurravam ela. Do lado direito da senhora, estava uma jovem loira, cabelos compridos, olhos verdes, rosto redondo, mais para o oval, bem feita de corpo, um físico de se fazer inveja. Quando o ônibus passava pelo Largo da Concórdia, o rapaz, não sei se por delicadeza ou cansado de tanto estar sentado, ofereceu o lugar à senhora. Esta, polidamente agradeceu recusando a gentileza. O rapaz, então, veemente se levantou e cedeu à garota. Ela retribuindo deu o lugar à senhora que, é claro, vendo o rapaz em pé, não se fez mais de rogada, sentou. Ele, coitado, no aperto do ônibus não sabia onde colocar a mochila que incomodava não só a ele, como aos outros, assim sendo, se viu forçado a erguê-la acima da cabeça. A alça da mochila sendo um pouco grande, sem que o rapaz visse, batia na cabeça do senhor que estava no banco da frente. O pobre do senhor ao sentir a ponta da alça cutucando sua cabeça, por duas vezes olhara feio para o rapaz. A dita da senhora refestelada nem se preocupou em segurar a mochila para o pobre do rapaz. Vendo a cena, me indignei com a ingratidão da mulher. Com pena do rapaz, peguei a mochila para segurar. Quero continuar escrevendo, contudo o sono pesa nos olhos. Fecho o livro. Terminei de ler Água viva, Clarice Lispector. Muito bom. Como estava contando, pergunto: dá prá ser gentil? Valerá? Será que haverá alguma balança onde não sabemos em que lugar ela está ou mesmo que exista, os nossos pontos positivos serão debitados? Sinceramente não acredito. Contudo sempre faço, procuro fazer alguma coisa que não pese tanto. É pequeno eu sei, não consigo fazer mais, não tenho a bondade dos anjos sem intenções. Não que eu seja mal intencionado, a vida me fez assim. O que posso contra o fraco galho que sou arrastado pela correnteza da vida. É a mesma força que me faz escrever no ônibus, que me leva para algum lugar. Qual? Não sei. Apenas sei que vou, sou obrigado a ir. Agora são 19:20, Tatuapé. Daqui a pouco estarei em casa. Antes de terminar, contarei um segredo, um tremendo segredo, guarde-o no âmago do seu sentimento. Escrevo como água viva que morta corre no riacho seco da minha vida. Eis o meu segredo. Guarde-o .
Pastorelli
Enviado por Pastorelli em 25/10/2006
Código do texto: T273591
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Sobre o autor
Pastorelli
São Paulo - São Paulo - Brasil
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