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PROCURA-SE CÃO - CRIANÇA DOENTE

Não faz muito tempo, eu estava transitando na cidade de Santos quando reparei numa faixa, que continha os dizeres:

“Procura-se cão poodle caramelo, atende por nome tal. Recompensa-se bem. Tem criança doente.”
  A frase estava nesta seqüência mesmo, sem pôr nem tirar, à exceção do nome do canino, que agora me falta à memória. Fiquei pensando na aflição dos dois seres: o cão, perdido neste mundo-cão, talvez nas mãos de pessoas inescrupulosas ou à mercê dos restos de comida que uma alma generosa possa dar-lhe. Sentirá muita falta da ração importada ou dos seus brinquedos caninos, ossos de fibra, bolas de borracha e uma casa confortável para dormir. Afinal de contas, ele merece, pois “cachorro também é ser humano” como disse Antônio Rogério Magri ex-ministro do Trabalho, do excomungado governo Collor. Não sentirá, talvez, tanta falta dos banhos com xampus e cremes próprios para sua espécie, tampouco das vacinas periódicas á qual era submetido. Enfim, contraditória e ironicamente, ele se encontra num mato sem cachorro.
  Também passou por minha mente a aflição de uma criança, desprotegida, sem o seu (talvez) único amigo de verdade, aquele que a ouvia falar por horas sem reclamar, sem a interromper e sempre aceitando as suas opiniões. Uma criança que tomba doente, claro, porque não tem aquele companheiro que sempre está disposto a brincar, independente da hora, da estação do ano, do momento; muito diferente daquela raça chamada ser-humano-adulto que sempre sofre da síndrome do “não tenho tempo” ou do mal de “estou muito cansado”. Enfim, dois seres desamparados, deslocados de seus mundos e entregues a uma

sensação de impotência geral: quem os salvará deste labirinto emocional? Quem será o elo, a ponte que unirá as duas criaturas, a fim de restabelecer a ordem neste caos de emoções?
  Não muito tempo depois, aquela faixa não estava mais lá, não sei o que de fato aconteceu, se um vento mais forte a arrancou do poste ou se efetivamente, a paz chegara naquele lar, debelando doenças e o desamparo entre aqueles seres tristonhos. Porém, algumas dezenas de metros adiante, o semáforo apontou a cor vermelha e fui convidado a parar quando um garoto, raquítico, pés sujos e todo maltrapilho se põe à frente da minha moto e começa uma seqüência de piruetas com dois malabares.
  Era noite e o asfalto já não estava tão quente, mas durante o dia a sola dos pés deste menino deve entrar em uma “fritura com pouca banha”, para tomar emprestada uma frase do meu amigo Augusto Agnello, exímio baterista de jazz fusion. De repente, o encontro de dois indivíduos indo para o trabalho: eu, com meu emprego formal, carteira assinada, etc e o menino. Apenas um menino, sem nenhum recurso legal para que o ampare. Logo me veio a lembrança da faixa e a figura daquela criança de pouco mais de uma dúzia de anos de vida.  E se em cada semáforo fosse colocada uma faixa semelhante a essa?

“Perdeu-se uma criança... recompensa-se bem. Tem uma sociedade doente”.
 
  Não sou hipócrita, tampouco salvador da pátria, não tenho ONG nem trabalho com o Koffi Annan, mas é tristíssimo observar uma criança perder sua infância em troca de umas moedas, ainda mais com os pais que muitas vezes obrigam-nas a fazer tais malabarismos. Parece lugar-comum falar destas coisas, mas não dá para banalizar esta violência contra o futuro do país do futuro; de tanto a mídia mostrar este tipo de estupro


social, ficamos indiferentes à situação quando somos confrontados. É por essas e outras que eu acredito na educação como caminho transformador para uma sociedade injusta, desigual,
iníqua e racista como a nossa. Precisamos fazer com que a escola valha a pena para essa meninada, fazendo com que esta instituição seja um lugar de aprendizado, socialização, entretenimento e lazer. Tomar algumas medidas impopulares e que detonam tardiamente nas urnas, como acabar com essa peste negra chamada Aprovação Automática e fazer com que o aluno, efetivamente, aprenda e desenvolva seus saberes, valorizar a escola e os professores através de uma mudança radical na política educacional, pois só assim o aluno será valorizado.
Depois da eternidade de 45 segundos, o semáforo ameaçou abrir e procurei umas moedas, troco da balsa, que estavam em meu bolso para entregar ao menino. Não deu tempo. Os carros que estavam atrás já buzinavam e a vida tinha que prosseguir, pois, como disse Joãosinho Trinta, maranhense dos mais criativos, quem gosta de pobreza é intelectual. Engatei a primeira marcha e fui trabalhar, ministrando aulas a quem tinha uma opção mais interessante para sua vida do que os malabares.
Marcelo Lopes
Enviado por Marcelo Lopes em 26/10/2006
Código do texto: T274278
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Sobre o autor
Marcelo Lopes
Guarujá - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Marcelo Lopes