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ABRACADABRA


Abracadabra! A palavrinha mágica abre as portas dos sonhos infantis. A enorme cama elástica, piscina de bolinhas, jogos eletrônicos, salão colorido com fantasias... A casa de festa de nome mágico é o legítimo cenário das representações. As crianças cruzam o portal apressadas e se entregam dispersas às brincadeiras. Correm, pulam, vestem e desnudam as fadas e os heróis, as bruxas e os malfeitores...
Barbarella desfila seus oito anos entre os brinquedos e os jogos. Brinca de pegar, brinca de esconder... Costura sua alegria na presença de todos os amiguinhos e sorri a leveza do amadurecimento. Finge ser uma pré-adolescente nos movimentos ensaiados e nas roupas da moda, mas se trai nos gestos infantis.
“Parabéns pra você...” As crianças ao redor da mesa entoam a canção aos gritos, emendam “com quem será, com quem será...”. Barbarella cora com o nome do namoradinho revelado com tanto entusiasmo. A malícia é desenhada em cores pastéis em cada face. A personagem se casa, tem dois filhinhos, se separa, se casa novamente...
A música espelha as novas realidades na graça dos infantes... Pra ela tudo ou nada? Tudo! Barbarella! Barbarella! Barbarella!
As crianças comem rapidamente o bolo de chocolate e voltam a brincar. Algumas mães conversam sobre o dia-a-dia dos seus filhos, outras são enfeitiçadas pela algazarra da meninada.
Procuro Barbarella, mas ela já se emoldurou nas bolinhas coloridas. Sento com as outras mães e sou surpreendida com a pergunta:
“Você acredita em anjos?”
Não sei o que responder. Não penso nisso. Respondo indecisa que “não”.
Anjos? Em que contexto?
A senhora, com brilho nos olhos, fala sobre as divindades, identifica os nomes dos setenta e dois anjos criados pelos cabalistas como desdobramentos do nome de Deus e de como eles influenciam no nascimento e na vida das pessoas: são os anjos da guarda e cada um é responsável por cinco dias. Mas existem cinco datas que não são representadas por anjos.
“Hoje, dia 31 de maio, é uma das datas especiais...”
Ela assume uma feição séria. Fico assustada com a revelação: logo no dia do aniversário da minha filha, existe um hiato na constelação dos anjos... A senhora sorri e declara que as pessoas nascidas nestas datas são pilares de luz, são quase anjos...
Dei à luz a um anjo. A metáfora é perfeita nas recordações dos anos de Barbarella. Meu pensamento é dominado pelas cores divinas. As primeiras palavras de Barbarella costuram as tantas ações que perpetraram em meu corpo a divindade de ser mãe.
As crianças aos poucos se despedem. O fim da festa é apenas o recomeço da construção de um significado verdadeiro no mundo, do constante aprendizado, do suave amadurecimento, da possibilidade de sonhar, da comemoração por mais um dia...
Barbarella desembrulha seus presentes, fala sobre a festa, veste as asas das fantasias... Cansada, adormece entre os brinquedos novos. Sua feição é angelical!
Apago a luz e deixo que a pequena alce o vôo para o horizonte acalorado de suas realizações.
Abracadabra! A palavrinha mágica abre novos caminhos para os oito anos de Barbarella.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/06/2005
Código do texto: T27453
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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