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O CONTEXTO DA QUEDA


A calçada irregular é o espelho exato para as inquietações do meu pensamento. Longe das arestas polidas, as formas do meu chão machucam os pés. As plúmbeas lembranças de algumas tempestades caminham sobre meu olhar perdido de presente e, entre distraída e amedrontada, sou presa fácil para as armadilhas do inconsciente.
Um ato espelhado, um corpo que cai... Novamente perco o chão...
A queda... Caio com o pé torcido em algum desnível, levanto-me rapidamente para não chamar a atenção... Desvencilho-me dos preocupados transeuntes, não aceito ajuda... Forço um caminhar dolorido para não mostrar meus machucados. Quero me perder na solidão dos passos rotineiros, porém não consigo esconder a raiva e a vergonha pela fragilidade sombreada nas pedras cinzas. Desejo desaparecer, perder-me num horizonte uniforme, mas estou presa demais à realidade para me ocultar dos olhares do mundo...
Chego ao abrigo seguro com o pé direito inchado e a dor entendida por toda a perna. As lembranças do tombo não cicatrizam – a vergonha e a raiva se misturam com a percepção da vulnerabilidade... De repente, o chão se perde entre as pedras irregulares e os pensamentos encontrados não conseguem deter a queda do frágil corpo.
Um ato espelhado, um caminhar doloroso... Novamente encontro o chão desnivelado de tantos passos irregulares...
Os pensamentos são centralizados na possibilidade de anestesiar o corpo, libertar os passos de um caminho viciado na uniformidade de uma narrativa contínua...
A queda... O chão tão próximo me amedronta. Sento e observo os livros amontoados na cabeceira. De repente, um descuido pode desequilibrar a pilha. Tento separar o que já li, organizar o espaço de minhas viagens literárias... Sinto segurança ancorada nos portos da ficção...
“Medo de espelhos”. O título me instiga a decifrá-lo, apesar de já ter lido o romance de Tariq Ali. Faço um paralelo no diálogo entre pai e filho, margeando um muro recém-destruído. Caminho na Alemanha unificada, sujeita aos tantos desníveis, reconquistada na narração de cada novo capítulo...
A necessidade de resgatar os contextos nas ruínas históricas reflete a urgência em restaurar meus primeiros alicerces nas impressões amadurecidas. Os veredictos presentes, o vácuo ideológico, a perda da identidade e da perspectiva, o egoísmo globalizado... Folheio o livro e paro num trecho destacado: “Tinha consciência de estar à beira de um abismo, mas, em comparação com o mundo de espelhos, máscaras e tortura de que acabava de se libertar, até o abismo era sedutor.
Aproprio-me da sensação sem me importar com o perfil do personagem. Sou o espelho do abismo tentando me equilibrar sobre o muro de minhas subjetividades.
A queda...
A irregularidade das trajetórias nos passos equivocados de um certo caminho, a constância do pensamento na firmeza dos passos contextualizados.
Descubro que torci o pé no chão refletido de instabilidades. Tantos meios-fios margeiam nossas percepções e vivências... Tantos medos... Tantos espelhos...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/06/2005
Código do texto: T27458
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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