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DE TUDO RESTA UM POUCO

De tudo  resta um pouco . Do pouco resta tudo. Resta. Resta a bituca no chão espremida pelo passante. Resta a terra  que cai  do carrinho  que o operário leva. Resta a gota no copo dagua  que se acabou de beber. Resta a nuvem  no céu  azul, abandonada. Resta a criança  na espera da mãe  na escola. O apaixonado  na porta da amada, o bilhete no chão da estação . O pedaço de papel  amarrotado de uma carta  que nunca será escrita.  O som da buzina, a sirene da ambulância .A ânsia do afogado  no meio do mar sozinho. O vôo do passaro , o pique do falcão á caça da presa . A pressa do cavaleiro andante, a água no poço , na poça, na lágrima de despedida .A última letra no anúncio  eletrônico .O adeus deixado no porto , no aeroporto , na rodoviária, do retirante, exilado, imigrante . Na esperança que é sempre a última que morre . O rastro do perfume, lume , que carrega idéias , fantasias , desejos. O risco da estrela cadente nos céus , o vôo dos pássaros, a queda . Do retrato retratado  em preto e branco de alguem que partiu  daqui, de algures , de alhures . Da última frase do último capítulo  do livro que leu . Da escrita redonda, bem traçada  de alguem que escreveu. Do bilhete ou da carta  esquecida no fundo da gaveta por tantos anos. Do ferro enferrujado  do automóvel abandonado, do vagão  ferroviário  que ainda  á pouco  cortava a noite  com passageiros. Do vento  que balança a roupa no varal  e faz dançar as folhas  no chão. Da pedra lascada ou polida que deixaram no fundo  da caverna. Do desenho canhestro  , esboço  de uma obra prima. No traço inconfundível do mestre. No afago  paternalista do professor. Nos óculos esquecidos na escrivaninha. No pedaço  de pão ou bolo  que matou a fome do mendigo. Do baton vermelho  na borda  da xícara  num bistrô  em Paris, ou no olhar  faminto  de uma criança em Darfour. Na cena romântica do filme da tevê , no DVD, do CD , do cinema. No papo cabeça do crítico de arte . No sorriso  profissional  da meretriz , barregã , messalina. Na flor  arrancada do jardim. Na gota de sangue do  juramento . Na lágrima , na lástima.
De  tudo resta um pouco. Do pouco tudo resta. Resta.  
grotius
Enviado por grotius em 27/10/2006
Código do texto: T274582

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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