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VÔOS AUTORIZADOS

Despertar de madrugada não desfez a neblina. Sem teto! O vôo foi cancelado e a agente de viagens tentava criar alternativas em conexões e escalas para os destinos inflexíveis. Horas em São Paulo e talvez chegasse em Brasília antes do anoitecer...
Por que não dormi mais? Por que não fui previdente e viajei na véspera? Vôos de inverno estão propensos às instabilidades...
Esperar... São Paulo... Esperar... Brasília... Por que eu?
Pedi um café e desviei minhas frustrações no jornal local. Férias coletivas, liminares, greves, confrontos, milícias, desencantos e gafes oficiais... Qualquer tentativa de fuga do cotidiano seria o alerta de um vôo não autorizado. Desisti de me distrair. O Café estava cheio. As pessoas sonolentas amenizavam a frustração de estarem presas ao solo com breves desabafos.
Duas horas de espera e consegui entrar no avião. O desencanto me prendia no solo estéril de impotência. Não conseguia ver um palmo na frente do nariz e ainda pretendia visualizar os idealizados projetos futuros...
Qual o meu papel no mundo? Ficar sujeita aos tetos possíveis? O que me representa?
Tantas perguntas e contradições encontram os esconderijos do pensamento e desfazem as ações possíveis. Vôos cegos de idéias estão fadados às instabilidades...
Decolagem, algumas turbulências e a fresta da porta do piloto...
A senhora ao lado espirrou e logo justificou sua gripe com a voz anasalada.
“Todos os anos tomo a vacina contra gripe, mas este ano... Você reparou?”
Diante de minha perplexidade, explicou que a campanha de vacinação para idosos foi lançada junto com a proposta de reforma da previdência. Quanta contradição: ora tentam minimizar as doenças dos velhinhos, ora alardeiam que estão vivendo demais e são os responsáveis pelo rombo da previdência.
A inatividade é nociva à seguridade social!
Ela, servidora pública aposentada, percebeu a enorme contradição entre os discursos e, sem conseguir ver o que estava escrito nas entrelinhas, preferiu a gripe às vacinas.
“Nunca se sabe...”
Fiquei com medo de seus olhos argutos e do tom com que me confidenciava suas suspeitas, mas me acalmei ao compreender que a lucidez muitas vezes nos deixa no limite das patologias. Seu pensamento era coerente e estava bem fundamentado.
Paranóia social não tem cura! Previna-se!
Liguei o piloto automático. Por instantes, senti a sensação de estar rasgando as nuvens num horizonte longínquo... O resgate infantil, a possibilidade de estar distante dos problemas das formiguinhas... Tentei entrar na cabina do piloto, mas a presunção de adulta e a timidez de criança interditaram meu trajeto...
Aterrissei com a voz do comandante e o cinto atado para o procedimento de descida...
A espera em São Paulo estava conectada com um ato público com faixas, bexigas, apitos e narizes de palhaços. Os aeroviários estavam mobilizados e buscavam atenção e solidariedade dos usuários em terra firme com os símbolos lúdicos de alegria.
Mais um espirro da companheira...
Quando os grandes espetáculos cerram as cortinas, restam os modestos palcos dos teatros íntimos. É preciso estar atento às frestas de possibilidade, afinal, nunca se sabe...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/06/2005
Código do texto: T27493
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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