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QUASE UM INSTANTE

Acabo de ler o romance “Quase memória” de Carlos Heitor Cony. Deito o livro na cabeceira e tento levantar as tantas emoções que foram desenhadas em minhas recordações. Sinto-me entrelaçada nas linhas do idealismo do personagem paterno. Acumplicio-me em cada capítulo de lembrança, costurada na poesia dos versos das vivências lidas pelo olhar infantil do escritor...
Os balões coloridos acendem as noites de São João, as vésperas de natal têm sabor de castanhas... O menino testemunha as venturas e desventuras do seu terno personagem, desembrulhando o grande amor à vida que marca as apaixonadas ações de seu pai.
Sem desatar o nó que o prende ao presente, o autor empreende longa viagem no tempo e caminha nas tantas recordações, rabisca o perfil do pai com rara poesia. A leitura me contagia e emociona. Perco a noção do tempo. Anoiteço em frente ao embrulho, sinto o sabor das mangas do cemitério do Caju, compartilho o medo do jacaré no lago do quintal, descubro o leste no passeio ao Sumaré, compreendo a turbulenta e frustrada viagem à Itália... Enfim, quase consigo me identificar com as tantas recordações desatadas.
Ergo os olhos para meus embrulhos. Lembro dos piqueniques da infância sempre marcados pelas grandes narrações de aventuras. Meu pai engrandecia cada momento com toques de magia. Ao anoitecer, contava as histórias da heroína Cachinhos de Ouro que se libertava da menina sonolenta para viver as grandes aventuras longe dos lugares comuns.
A heroína cresceu, seus cachos escureceram e suas aventuras modificaram. Hoje, ela vence o cotidiano e sobrevive... Cachinhos de Ouro é apenas um troféu embrulhado nos nós de encantamento da infância de uma mulher. Um embrulho que deve permanecer intacto nos guardados do tempo.
Os balões... Gostaria de viajar num dirigível colorido e chegar às férias de minha filha no Rio. Perto dos avós, ela vive os piqueniques encantados, os infinitos passeios de bicicleta, os mergulhos nos mares de encantamento... Ligo para ela, a voz alegre desembrulha as primeiras impressões. Fala rápido como se quisesse reter todas as vivências. Desfia o amor em cada palavra.
Percebo-me em sua voz distante. Sinto-me desembrulhar da maternidade e acompanhá-la em suas tantas aventuras... De repente, aporto no quarto entardecido... No céu de meu pensamento voam tantos balões enquanto aterrizo sozinha entre as recordações de filha e as narrações de mãe. Sinto saudade dos pequenos momentos, seus sabores e cheiros... Embrulho-me com novas percepções e sentimentos.
Compreendo o texto que destaquei no livro: “Nem vontade tenho de olhar o relógio. O tempo parou. Entretanto, nunca o tempo foi tanto tempo.”
Barbarella despede-se com afeto. Está na hora de mais uma aventura. As férias de minha menininha de sete anos mostram que as recordações são presentes que se renovam em cada geração.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/06/2005
Código do texto: T27498
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (789713 leituras)
2 áudios (1258 audições)
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Helena Sut

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