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                Crônica de Finados: Velórios

   
    Dificilmente vou a velórios.
        E o dos parentes?  Só compareço em atenção ao irrecusável apelo consanguíneo. 
        Se o falecido é um amigo do peito, dou uma passadinha no cemitério, assino o livro de presenças, e me mando. 
       Quero, entretanto, dizer, que este meu comportamento não significa menosprezo ao defunto amigo.  E muito menos desrespeito à sua família, que continuará contando com a minha eterna e irrestrita solidariedade.
         Mas é difícil ficar, horas a fio, a olhar para o cadáver daquele que quem, em vida, foi um bom companheiro, nas maratonas terrestres. 
         Vê-lo no fundo de um caixão, inerte e esquálido, e ainda cercado por gente chorando, rezando, cantando e sorrindo é, no mínimo, constrangedor.        
         Prefiro homenagear o amigo morto na missa de trigésimo dia quando há menos lágrimas.
        Embora a saudade seja a mesma; ou até maior,  porque ampliada a realidade da sua ausência...
        Na última vez que compareci a um velório, fiquei horrorizado! Dava, na ocasião, um dorido adeus a uma amiga querida que, de repente, deixara a vida, depois de vivê-la feliz e intensamente. 
        Enquanto os parentes da finada choravam sem parar, a dois passos do caixão, muita gente se envolvia  em ridentes e ruidosos papos; todos indiferentes à dor daquele crucial momento!
        Alguém que observava minha cara de espanto, aconselhou-me a ficar na minha. E disse:  "Fique na sua."  E fez questão de me avisar, sussurrando, que algazarra, agora, é coisa corriqueira nos velórios.
         Estava mesmo por fora.  Resultado da minha covarde política de não querer levar, pessoalmente, aos meus mortos, um abraço de despedida.
        Mas, que fazer, se sofro de tanatofobia, ou seja, pavor da morte.
        Enquanto cantava-se benditos e rezava-se Ave-Marias pela amiga morta, eu me lembrava do saudoso Nestor de Holanda. 
        O irrequieto e  irreverente cronista pernambucano também não gostava de enterros e nem de velórios.
        Sobre o velório, ele escreveu que, ao se comparecer a essa dolorosa cerimônia fúnebre, "perde-se tempo... e o morto não liga pra gente". 
         E concluiu, afirmado que a morte deve ser coisa muito boa "porque o defunto é o único que não chora".

         Atenção. Acabo de decidir que no meu velório nada deverá ser proibido. Podem conversar e sorrir à vontade. Serei um defunto complacente e moderno.
         Saibam, entretanto, que embora com os olhos lacrados pelas mãos inclementes da morte, estarei atento ao que acontecer junto ao meu caixão.  Meu caixão, quero-o modesto; e coberto por rosas-chá.
         Desejo que ninguém gaste suas lágrimas diante do meu cadáver.
Se quiserem me homenagear, cantem, no pé do meu ouvido, uma canção do Orlando Silva; Por ti, por exemplo.
        Será o bastante para que eu parta contente nos braços da Irmã Morte...  Irmã morte! Assim a chamava Francisco de Assis, com imensurável carinho por ela...

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 29/10/2006
Reeditado em 14/05/2013
Código do texto: T276862
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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