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MULHER INGRATA II : O DESCONHECIDO

    Não importa o quanto você saiba que aquela é a hora certa e que aquela é a decisão acertada. Todo mundo que já viveu uma separação sabe à exaustão que ao bater a porta e sair (ou deixar o outro sair, tanto faz), as malas e o coração pesam como chumbo. Não importa que seja a coisa certa. Fim é fim e, pelo menos na hora, é o fim.
    E foi-se a Mulher Ingrata, com suas malas cheias de roupas, o coração pesando feito chumbo buscar aquilo em que nunca acreditara existir e que lhe custara um amigo querido, que apesar das rosas vermelhas, ainda trazia no rosto o olhar de "não entendo, estava tudo tão bem...a gente nem brigava...". "Exatamente", pensava a Ingrata. "A gente nem isso fazia".
    Ser humano é ser dual, contraditório. E, se a um tempo, o coração pesava feito chumbo pelo amigo perdido, ia leve feito pluma consolado pela consciência livre. E foi em busca do que nunca acreditara, mas que julgava ter visto em um par de olhos de sol. E faíscavam para ela. "Dane-se, mundo cão...Família, convenções, vida tranqüila e segura: tudo para o alto. Foi ao encontro dos olhos de sol.
    Ele a esperava, mas não esperava. Desejava que viesse, mas não acreditava que o fizesse. Não fosse a realidade batendo na porta com as malas na rodoviária, provavelmente não acreditaria. Ali estava ela : a desejada Ingrata, para ele mais apropriadamente chamada Indecisa, de vez que foi um custo fazê-la resolver. Para ela, nem Ingrata, nem Indecisa: apenas uma Madre Teresa. Não sabia dizer a palavra não para outra pessoa que não fosse ela mesma. Antes ela sofrer que os demais. Mas sempre tem a hora de roer a corda e pedir penico. E tinha os olhos de sol. E ela acreditava neles.
    Duraram pouco as férias na praia com os olhos de sol. Tornavam-se com freqüência sombrios, devastadores. Viam fantasmas em todos os armários. Viam segundas intenções em seus carinhos. Viam o que ela não era. E esqueciam-se do que haviam visto quando a miraram pela primeira vez. Esqueciam-se da borboleta alegre, que corria pela praia e brincava na areia. Agora ela era dele. Não podia ser como antes. Os olhos de sol foram se congelando a cada pedaço de tempo. E a Ingrata Indecisa conheceu o Medo nos olhos que lhe haviam mostrado a Coragem. Mas ainda não sabia disso. Ainda afastava as nuvens com as mãos para trazer o sol de volta aos olhos. Sei que parece história infantil: mas isso é uma outra história.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 25/06/2005
Reeditado em 25/06/2005
Código do texto: T27755

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai