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Guarda-chuvas*

Sempre, quando criança, pegava-me cantando uma música que havia aprendido, acho que na primeira série com a professora Sandra. Era sensacionalmente linda. Simples nas estrofes e atraentes nos versos. E assim recitava: “era uma casa muito engraçada, não tinha teto não tinha nada...” era uma música que eu amava. Gostava de suas rimas o que facilitava a lembrança contínua de seus versos. O que mais me tocava nessa música era a historinha. Imaginava, mesmo com tão pouca idade, que retratasse a história de uma pessoa solitária que morava sob um guarda chuva. Esquecia do teto, e levava em conta o fato de que não tinha parede, chão, porta, janela, endereço... Depois, já grande, entendi que se tratasse de uma espécie de ironia. O poeta – grande Vinícius - queria retratar a realidade das pessoas que não tinham casa. Talvez um mendigo. Quando em meu Cesto de Flores, pensei a possibilidade de a letra da música retratar a realidade de um povo sofrido expulso de suas terras por grileiros e fazendeiros. Essa gente violentada era, para mim, esses moradores da casa, sem teto, sem parede, sem chão e sem endereço.

O que me perseguia sempre era a idéia do guarda chuva. Tenho paixão por um objeto desses. Acho-os misteriosos. Penso que esse sim é um grande amigo de nós humanos. Talvez até o maior. Como as pessoas, por deveras vezes, também nos trai. Esquece de nossa existência deixando-nos a mercê dos tempos e ventos. Em seu colorido hipnotizante ou em seu preto magistral esconde-se um ar de superioridade. Está a cima da cabeça dos seres humanos. Protege seus corpos e seus pensamentos em sol ou chuva. Isso lhes faz especial.

Outro dia, em uma dessas manhãs, a caminho da faculdade, tive uma idéia meio estranha. Era um instante chuvoso. Como eu andava com meu fiel parceiro, não sofri as intempéries daquela surpresa, presenteada pelas minúsculas gotas de água que caiam sobre aqueles reflexos tímidos de sol. Peguei-o, abri e o pus sobre minha cabeça. Segurei-o firme e pronto, já estava protegido. Ao ver inúmeras pessoas com seus guarda chuvas das mais diversas cores, descendo a passarela da estação que me levava a meu local de estudo, me veio um forte espírito de político. Homens e mulheres de todas as idades andavam com tamanha pressa sem darem conta do perigo que representava as pontas de seus objetos. Então pensei: “se fosse político faria uma lei proibindo a fabricação desses objetos com pontas”. Sem ocupar um desses cargos de maior efeito, dificilmente conseguiria algo do tipo. Ri de mim. Seria um projeto bem maluco. Acredito que as pessoas andariam mais tranqüilas, pois não precisariam se proteger de terríveis pontas. Pensei no sofrimento que causaria a esses parceiros. Com certeza perderiam todo o charme que as pontas lhes presenteavam.

É sempre gostoso lembrar-me desses amigos de todos os momentos. Tenho tido uma saudade especial de outra cena com esses objetos. Trata-se de episódios acontecidos em Ananindeua no Pará. Todos os dias ao ir à invasão Antônio Conselheiro “dar aula”, lembrava logo de meu amigo de sol, que sempre me fazia companhia naquelas viagens. A caminho de meu ofício passavam por mim vários alunos de uma escola vizinha. Riam de mim. Achavam estranho eu andar com meu amigo. Depois de um ano se acostumaram com a idéia. Quando entrava na estrada que dava acesso à sala onde trabalhava, de longe meus alunos viam as pontas de meu companheiro de estrada. Então gritavam por meu nome e vinham correndo me abraçar. Meu companheiro “tamanho família” acolhia-os com todo cuidado. Tratava de dar sombra pra todos sem se incomodar.

Dentre outras lembranças das quais tenho muita saudade, recordo a falta que me fazia um desses companheiros dentro dos coletivos de Belém em dias de chuva (quase todos os dias). Havia coletivos tão velhos que entrava água em muitos deles. Quando não pelas janelas ou pelas portas era por buracos no Teto. Imaginava-me com meu amigo de chuva aberto no interior desses veículos. Com certeza faria um enorme bem para muita gente.

Ainda nesses coletivos abandonados pelo tempo, olhava pelas janelas amarrotadas de poeira. Nas avenidas principais como Presidente Vargas e Pedro Álvares Cabral, via um mundo de cores, que mesmo sufocadas pelos vidros manchados, não perdiam sua beleza. O colorido propiciado por inúmeros guarda chuvas mais parecia um amontoado de vespas brigando. Movimentavam-se de um lado para outro. Iam e vinham por debaixo das mangueiras da primeira Avenida. Ria das possibilidades de cenas com tantos daqueles em minha frente.

Em minha memória de criança escondem-se vários guarda chuvas. Nas brechas de meus pensamentos, vez por outra, me aparece uma belíssima cena acompanhada por um desses. Gosto muito de uma em que, em dias de chuva, eu e minha irmã íamos para casa debaixo de nosso teto ambulante, para nos proteger daquele mar que desabava. Andávamos pelo menos um quilômetro e meio da Escola até nossa casa. Nesse percurso passávamos por aquelas ruas esburacadas onde as enxurradas mostravam seu potencial de voz. Cantavam em tom grave. Um som confuso entre barítono e baixo. Em nossa sorte, por vezes, passavam carros e motos que nos lançavam lama. Dava a impressão que, quando viam pessoas sob a chuva, aceleravam de propósito e então se aproximavam das pessoas e lhes banhavam. Penso que sentiam prazer nesse espetáculo.

E lá íamos nós. Eu estudava na terceira série. Era fininho. Tinha o cabelo preto igual de índio. Na verdade parecia um. Devia ter uns dez anos. Já minha irmã era um pouco mais alta e tinha três anos a mais. Em seu cabelo desarrumado pelo vento se escondiam umas tímidas mechas loiras. Seus olhos verdes se perdiam debaixo de nosso guarda chuva. Era um pouco mais fina que eu. Isso não lhe impedia de me bater em casa, quando a mãe saia. Fazíamos aquele percurso sob nosso fiel protetor. Como esse estava em fase de crescimento, nos abraçávamos para que não ficasse nenhum de nós à mercê da chuva. Era magnífico aquele momento. Ali esquecíamos as constantes brigas de casa. Deixávamos de lado os diversos momentos que ela me batia e eu corria atrás dela com o cabo de vassoura. Não levávamos em conta os fuxicos que fazíamos um contra o outro quando nossos pais chegavam de seus trabalhos. Debaixo daquela proteção nos perdoávamos. Era como se fosse um confessionário, mas sem precisar de palavras, pois tudo acontecia naturalmente.

Tendo como positivas essas memórias, inculcado no delirar de minha imaginação, penso como seria, se todos fizessem a experiência do guarda chuva. Não o objeto por ele mesmo, mas o que ele, enquanto objeto de significação pode inspirar. Seja significando - para os excluídos de nossa sociedade - casa, terra, lar, emprego, escola, lugar de perdão ou simplesmente sombra em meio a uma sociedade (de sóis ardentes) excludente que leva em conta o dinheiro ante a vida humana.

29 de junho de 2005

PS:Crônica publicada na Antologia: Novos Talentos da Crônica Brasileira, 3º volume, em Julho de 2006.
http://www.camarabrasileira.com/tc03.htm
José Heber de Souza Aguiar
Enviado por José Heber de Souza Aguiar em 30/10/2006
Código do texto: T277767

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Sobre o autor
José Heber de Souza Aguiar
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 32 anos
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José Heber de Souza Aguiar