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O CÃO MILÊNIO


          Na concepção de Milênio, e a seus olhos, eu sou um cão, um canzarrão, seu líder, seu chefe, menos peludo que ele é verdade, mas ele me vê como se fosse cópia sua, esperto, raçudo e pançudo.
          A exemplo de mim ele também sente emoções variadas, as cores de seus olhos mudam a todo instante, tornam – se azuis quando estão alegres, amarelados quando se irrita, laranja quando esta em alerta, e vermelhos quando esta pronto para atacar, ficam dourados quando sua bocaça se fecha no corpo inimigo.
          Todos esse detalhes eu comprovei numa fração de segundos, quando ele se insurgiu contra mim, naquela tarde fatídica.
           Fui lhe dar o trato, mas ao apanhar o prato, ele saltou sobre mim como um vampiro sedento, as cores de seus olhos se intercalaram e numa fração de segundos eu os vi dourados e sua bocarra se fechou nas carnes de minha coxa.
           Na manhã seguinte, sentou – se ao meu lado, presumo que tenha se lembrado do que fizera, pois chegou cabisbaixo, me fitou com olhos verdes lacrimejantes, parecia arrependido por ter em mim seus caninos cravados.
           Começou a gemer e foi em direção ao seu prato, fiquei a contempla – lo com certa desconfiança, ele repetiu o pequeno percurso várias vezes, ia e vinha pacientemente, sempre me encarando indolente, foi então que num vislumbre percebi sua intenção: estava como que me convidando para acompanha – lo, levantei-me com passos vacilantes, sentindo dores nos ferimentos.
            Aproximei – me com todos os sentidos em alerta, a um metro de seu prato, estaquei, e Milênio, num gesto rápido e inteligente, abocanhou o prato e veio em minha direção, acenando sua calda peluda com satisfação, sorriu e me entregou o objeto como se dissesse: ele é seu, é meu é nosso.
            Naquela hora senti de sua parte o convite, para uma trégua, uma entrega harmoniosa, uma integração sobre dois seres distintos, pareciam dois racionais formando uma aliança, recíproca e verdadeira.
             Sorridente dirigiu – se para sua pequena casa de pinho, está dócil e pede afagos, chega a gemer para ganhar carinhos, reclama de tudo, até do gato miando ao longe.
              Suas pernas são longas e finas, seus pés com enormes unhas, que passa no chão pacientemente para lixar, odeia ração, mas come para não morrer de fome, adora comida de gente: frutas, legumes, doces e ossos artificiais, lambe tudo o que vê, inclusive os imensos cortes em minha perna, que ele próprio fez com seus grandes dentes pontiagudos.
               É uma fera não enjaulada, correndo e saltando para todo lado, tem seus desejos e também receios, foge do banho como o vampiro da cruz. Nessa hora lembrei – me de Jesus, do criador do céu, da terra e dos seres. Instituindo para todos, armas naturais, garras, dentes e chifres aos animais. Para nós, instituiu, amor, bondade e tolerância, portanto, devemos preservar esses atributos celestiais.
Fica-se a lição: O cão que voce mais trata, é o que mais te ataca..
Academia Jacarehyense de Letras   -     Daniel de Castro   -  Cadeira nº 11
daniel de castro
Enviado por daniel de castro em 30/10/2006
Código do texto: T277787
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Sobre o autor
daniel de castro
Jacareí - São Paulo - Brasil
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