CapaCadastroTextosÁudiosAutoresMuralEscrivaninhaAjuda



Texto

A torta

Wilson Correia

Havia nascido há menos de década. Agia como se contasse um século. Era Mara. Fazia-se possuída pela compulsão dos próprios caprichos. Em casa, na rua, na escola, à beira dos rios onde todos pescavam e se divertiam, até no catecismo, até durante as missas de domingo, lá estava Mara a lançar artifícios arquitetadíssimos para se dar bem. Numa segunda-feira, enquanto se encaminhava para a escola, teve a merenda arrastada pela correnteza que quase a engoliu de roldão. Chegou à escola de mãos abanando, fato que a fez matutar no anterrecreio como se safar no intervalo. Quando bateu o sinal para o lanche, Mara executou o seu plano com mestria. Ninguém notou quando ela, tomando para si a lancheira de Clara, fingiu cuspir sobre os quitutes da coleguinha. Na verdade, ela havia cuspido fora da lancheira, mas Clara não chegou a perceber o engodo, dado o malabarismo que Mara fizera movimentando mãos, boca e lancheira. Ao ouvir de Clara a ordem “Agora coma seu cuspe”, Mara fez a festa, regada a sarcasmos que só os frios, calculistas e piores algozes do mundo podem experimentar. E não parou aí. Prosseguiu nessa trilha vida afora, para espanto de todos quantos, lúcidos, deparavam com a amarga ao longo do caminho. Aliás, era sobre Mara que a professora primária sempre dizia, assertivamente: “Há gauches nesta vida que nem Deus se interessa por consertar”.







Wilson Correia
Enviado por Wilson Correia em 15/02/2011
Reeditado em 27/07/2011
Código do texto: T2793844

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para a obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Comentários

Sobre o autor
Wilson Correia
Amargosa/BA - Brasil
1192 textos (374936 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/05/13 05:03)

Como anunciar aqui?