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Deus e o Diabo

Amanheceu...depois da chuva e nenhum vinho. Fui acometida por marcas de noites e guerras delirantemente sem nexo. Estou vazia e também cansada das manhãs. Amanhece todos os dias.
Quero escrever o que resta, rasgando a seda pura que não cobre um décimo sequer de minha razão. Latentemente sobrevivo, às custas do que não me custeia.
-Escuta! Não vejo as ditas pautas e o que me oculta é a pressão de panela, é a larva, é o fato de ter um Diabo instalado nas artérias, que se inquieta, se questiona e de tanta fome, morre de inanição, diante do banquete servido só pra ele e eu???
-Sente! - sei também que Deus me habita e se manifesta quando acredito na tal felicidade, quando me humanizo e me entrego, principalmente quando amo. Deus, não me permite às interrogações, por isto não me abandona.
Só que esta puta realidade, nos deixa próximos da loucura.
Sexo perto da divindade?
Que luxúria!
Pecado???
Já memorizei as parábolas infinitas do esquecimento e quanto mais eu penso, acaba doendo minha falta de estrutura e para não abalar e sondar o meu eu imperfeito: não faço perguntas, as respostas vão me parecer mentirosas. Meus ouvidos foram gastos pela erosão, foram guilhotinados. Nada de Grave !!!
Beiradas de mesas, não suportam meus cotovelos. A comida foi posta na latrina, por condutores naturais e eu pergunto: Não existo? - Verei depois ...
E o Diabo grita de um lado:
-Sua puta!
E Deus grita do outro:
-Minha filha!
Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Meu pai ... minha mãe e eu, três pessoas absolutamente distintas uma da outra. Sou meu pai, nas decisões e minha mãe, eu a tenho no útero dos filhos que não deixei nascer... nunca nenhum "filho-da-puta" perguntou se doeu, e eu grito que do gozo à morte, "meus amores", há um pequeno espaço saliente, assim como uma lepra, uma ferida nojenta e o que disfarça o cheiro, é o perfume barato, a maquiagem ou o sêmem de um homem que me cobre em alguma manhã.
Viajo nas permutações obscuras de meu dia a dia. Eu sei que dói, mas é preciso escrever, dormir e ainda não arrumei a casa. Quero viver deliberadamente, mas preciso ser feliz, desesperadamente, antes que eu morra pelo simples prazer de querer...
Só me confesso às linhas...nelas eu sangro. É preciso ser feliz, mesmo que agora só uma parte de mim, sobreviva, mesmo que depois eu não tenha a lama como salvação, mas hoje, especialmente hoje, eu preciso.
Sei que estou em tormento, mais do que uma cópia, é o arremesso de uma escala indefinida de emoção e pesares diferentes.
Não queiram me entender, do que eu preciso são de alternativas, uma medida que me tire das ruínas. Estou abruptamente cansada, fatigada de tanto escarlate e azul. A manhã nasceu azul e toda a minha essência se proliferou por espaços pequenos e até bons. Tive vontade de chorar uma lágrima minha, vontade de sorrir um riso meu, não este que sorrio pra levantar o astral da população, mas um que me faça sentir de fato feliz, assim como um gozo, um facho de luz.
Não pensem que estou delirando. A galera não entenderia. A defesa me esconde. Que Bom!!!
Não espero absolutamente nada de quem me faz companhia e se me perguntarem do que eu preciso, direi: - quem sabe a eternidade ou então uma aventura. No fundo, eu permaneço calada.
Ai, desculpa! Estou manchando o papel.
O pior, são estas coisas de falta, que consomem a gente.
Estou triste e até quero ficar... quero morrer de tanta tristeza e por não acreditar nesta inútil realidade, me reproduzo em uma, duas mil fantasias, daí eu sou desgraçadamente feliz.
E o Diabo grita de um lado:
-Abre as pernas...
E Deus suaviza:
-Te entrega ...
Ai...
Não estou molhada suficientemente para a penetração e nem livre o bastante para a entrega, então que me fode é a consciência.
Acabo vomitando minha alquimia na asa de um pássaro que se descuida e derruba a minha essência, transformando-a em gotas de orvalho. Já me sinto um pouco maior. Já não sou uma favelada com boca e olhos de inocência. Já não me sinto envergonhada de ter acordado em quartos que eu não conhecia. Eu não pedi que me deixassem sozinha e também não queria ter molhado o peito cabeludo de um certo cara que me fez contente. Antes de me sentir completa e debilmente mutilada, eu não calei a minha loucura e muito menos menti sobre o meu desejo.
A humanidade está triste e também tenta se defender da exposição demasiada de sentimento. Sentimento? Ou medo da solidão? Sentimento ou uma simples trepada?
A humanidade põe concreto sobre a ferida. Estamos sozinhos, apesar da super população. Somos todos carentes e cada vez há menos gente, por não viverem de acordo com suas loucuras.
Hoje eu não vou fazer as malas, por que ainda é inverno e eu não sei dormir sozinha. Prometo que vou acordar e também não vou cobrar nada de quem não consegue sacar minha fantasia. Prometo que não vou te atrapalhar com mandingas e nem vou escrever cartas, te revelando segredos.
Hoje eu vou levar minha psicose pro fundo do quintal e vou plantar sementes de ilusão no neonazismo de minha paixão improdutiva. Sou nada, mas eu quero ser nada. Supostamente me flagro por inspirações dementes.
Não me surpreendem os espinhos, não me congela a distância.
Quero ficar sozinha hoje. Amanhã é outro dia, só vou saber quando anoitecer.
Quero o mar, preciso do mar para renovar minha porção de menina, é que estou desgastada de tanta cachaça e alegria, preciso de um hímem para sentir a dor de uma curra. Quero ser currada virgem pra ver qual a diferença da entrega que eu tive.
Bem, mas a vida não me sugou por inteiro, meus amigos. Os seres tão maravilhosamente humanos, não calaram a minha boca. Já quero bem mais do que antes; os meus sonhos deixaram de ser alegorias. Aprendi a conviver com minha paixão. Tenho um Diabo que me alucina e um Deus que me humaniza. Tenho um Diabo que me põe de quatro e um Deus meu, que me eleva e eu, já não me sinto sozinha. Só isso...

Angela Lara
Enviado por Angela Lara em 29/01/2005
Reeditado em 17/03/2012
Código do texto: T2796
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Angela Lara
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
1829 textos (247858 leituras)
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Angela Lara