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Como eu mato pernilongos

Admito. Tenho um costume um pouco estranho. Gosto de cultivar aranhas nos cantos de casa. Fico observando como elas se alimentam, como matam suas presas. Já vi alguns mosquitos fugirem da teia. Aranhas pequenas abandonarem mosquitos maiores que elas. Enfim, é quase como ter um aquário.

Outra vantagem, e esta fundamental, é que elas diminuem, e muito, a quantidade de pernilongos. Andei reparando nos costumes deles também. Chegam voando por todo canto, nunca em menos de três. Quando um aparece em segundos você visualiza os outros dois. Neste “passeio”, pelo menos um cai em uma teia. Ai entra a força da natureza. Os outros dois percebem o perigo, de alguma forma, e pousam em uma parede. Ficam horas parados. Depois dão pequenas voltas, sem se arriscar na direção da teia. Suponho que a procura de uma saída.

Me mudei para perto de um bosque. Imaginem, um bosque numa metrópole e sinônimo do que? Pragas urbanas e estranhas formas de vida animal e vegetal. Logo adotei cinco aranhas, que não foram capazes de evitar um ataque de marimbondos. Matei trinta e quatro deles, não tomei uma picada. Eles destruíram três teias. Eram aranhas pequenas, especialistas em pequenos mosquitos e pernilongos juvenis. Predadoras cruéis que tiveram sua maior arma, construídas com dias de trabalho, destruída em poucos minutos por grandes marimbondos. Apelidei o dia de A Batalha do Geninbondo (uma mistura de genocídio com marimbondo).

As teias estavam em posições estratégicas. Duas ficavam no vidro da porta de correr da sacada. Logo na entrada, para recepcionar o inimigo. Outra no canto esquerdo alto depois da entrada. Outras duas ficavam em cima da porta, protegendo a fronteira com o corredor e impedindo a entrada de imigrantes de outros apartamentos.

Pois bem, todas as aranhas eram da mesma espécie. Não me pergunte o nome, vou descrevê-las. Pequenas e negras. Aranhas clássicas em área urbana. Acompanhava o dia-a-dia delas e sempre me certificava que tinha feito seu trabalho. A guerra não era fácil, a quantidade de mosquitos era grande.

Um dia, logo que entrei na sala me chamou a atenção o tamanho da teia do lado esquerdo alto. Uma grande quantidade de mosquitos estavam presos, e alguns já “embalados”. Procurei a aranha, mas nada de achar a pequena bola preta.

Continuei minha rotina. As outras estavam bem. Tomei banho, jantei e num momento de distração vi a evolução da natureza. A interferência da mãe para restaurar o meio. Nos últimos dias a quantidade de pernilongos cresceu por causa do calor, e as aranhas não estavam dando conta. Então uma aranha maior foi deslocada para o canto direito, provavelmente lugar onde eles mais se concentravam. Ela tinha o corpo vermelho, e uma bunda grande preta. Possivelmente  perigosa para mim. Mas a deixei lá, não ia faltar comida.

Fiquei observando como ela tecia sua teia. Construía partes em que ela jamais voltaria. Já tinha comida para alguns dias, mas não se cansava de trabalhar. Tinha descoberto o paraíso. E eu pensava: “por que vou interferir nisso? Deixa ela ser feliz”. Além do que, me poupava o trabalho de matar as aranhas e depois os pernilongos.
Eder Capobianco (Antimidia)
Enviado por Eder Capobianco (Antimidia) em 02/11/2006
Reeditado em 15/11/2008
Código do texto: T279894

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Sobre o autor
Eder Capobianco (Antimidia)
Assis - São Paulo - Brasil
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