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MULHER INGRATA IV: A TOUPEIRA

        Uma mulher apaixonada, que crê estar amando, é teimosa, já foi dito antes. Mas, mais do que isso, perde a noção de si mesma e acredita com todas as forças que o amor ou a atenção que recebe do objeto de seu amor são coisas pelas quais ela deve estar de joelhos agradecendo todos os dias. E é aí que a Ingrata dá lugar, com o auxílio constante do efeito Madre Tereza a uma outra mulher: a dedicada e esforçada Mulher Tapada.
       Não estou aqui falando de um ser de pouca capacidade intelectual. Tapada é a palavra certa porque, independente de seu QI, ela tem uma espécie de rolha que tapa-lhe os ouvidos e de uma venda que cega-lhe os olhos: o seu QADQJ(Quero Acreditar de Qualquer Jeito), que geralmente é altíssimo. Não importa quantos sinais os poucos neurônios que ainda funcionem lhe mandem. O seu QADQJ tapa tudo. E a Tapada vira mesmo isso: uma toupeira. Não importa o quanto ela saiba que está certa, que não fez ou fez isso ou aquilo de que é acusada: entra no buraco, fecha os  olhos, ajoelha-se e diz, ao comando de Madre Tereza: "Obrigada, meu Amo e Senhor por estar presente na minha vida e por fazê-la assim, tão cruelmente agitada. Obrigada por dar atenção a este humilde ser, tão cheio de erros." A Toupeira Tapada fecha a portinha da toca, e segue, feliz da vida, por ter encontrado uma maneira de continuar a acreditar que tem um belíssimo amor de contos de fadas em sua vida. E ai de quem ameace seu castelo, digo, sua toca.
      Ocorre que as toupeiras não convivem muito com o sol, o que então, de dia, torna tudo mais fácil. É só ficar na toca e está tudo resolvido. Mas saem de noite. E na escuridão da noite, enxergam bem demais. E ouvem. E a Toupeira Tapada começa  a ouvir de madrugada sua própria voz, o que se torna um perigo. Quando se começa ouvir a si mesmo, começa a tortura de fazer perguntas. E todo mundo sabe o que acontece a quem se pergunta demais.
        Apesar disso, uma toupeira é uma toupeira, e como tal, teimosa. Uma noite de lágrimas aqui e outra ali, e o dia começa também a tornar-se inquietante e cheio de dúvidas. Mas como uma boa Toupeira Tapada e agradecida a seu Senhor, mantém-se na escuridão, onde as lágrimas não podem ser vistas. O QADQJ já começa a dar alguns sinais de exaustão e nem todas as perguntas se calam.
      O Amo e Senhor já não é tão ensolarado aos olhos da Toupeira e a toca já não a comporta mais. A Toupeira está agonizando e junto com ela, os parcos raios de sol que ainda restavam naqueles olhos de um dia...
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 26/06/2005
Reeditado em 27/06/2005
Código do texto: T28049

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
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Débora Denadai

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