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Ao tempo do futebol com Badé.

Não substime a capacidade de ironia do destino. (Anderson Roberto de Carvalho)

É manhã com a graça das manhãs de generosas luzes - típica manhã em que todos os gatos são leopardos. Ajeito-me tête-a-tête com o micro, sei que menos de hora terei um pregão pela frente. Dona Alda traz-me uma fumegante dose de café. Pensei “essa senhora é bacana” e falei “é tudo que preciso agora, jogar um pretinho no peito”. O telefone não toca ainda. Costuma irritar-me, quando mal me ajeito na sala, e lá vem aquela campainha déspota para anunciar um pedido, para fazer-me uma inquirição, para colocar-me fardos. Não, não havia tocado e nem o Ramos ainda se apresentara para dar soluções mágicas a todos os problemas da humanidade com o seu prolixo vernáculo. Ele demoraria ainda pra chegar e dizer que era por causa desses pequenos detalhes que os aviões estavam caindo – Diria isso ao me entregarem um documento por engano, quando deveria ser reportado a outra pessoa. Mas antes disso, o Gato Mestre aparecerá sorrateiro, com o seu jeitão "vestes de cordeiro, sem ser lobo" – " esperto de bom coração", para falar que haveria uma “pelada” ao final do expediente. Pensei “nossa, hoje a minha máscara cai”. Não foi por uma só vez que eu houvera posado pra ele com minha “marra de jogar fácil”. Teve o dia que a passeio, e ao passarmos no gramado verdinho, nós em companhia do chefe– disse mesmo que a bola parecia colar na minha “caixa torácica”.

Se bem me aprouver, talvez conte pra todos o acontecido na dita pelada, mas em outro momento. Mesmo porque ainda não aconteceu. Como estamos na cara de novembro (no futebol a gente diz na cara do gol) e as cigarras machos, no morno da primavera, já se rasgam numa estridente cantoria para atrair umas fêmeas e outras, recordei-me de uma outra pelada. Vou rememorar, vou de “flash back”:

Quando combinei a “pelada” com a V-7, estava mesmo pensando em me criar em cima daquela turma.O Badé “dono de João Neiva”, havia passado na minha sala de trabalho com um largo sorriso na “lata”. – Olha Joel, não vai esquecer o nosso trato futebolístico! – Claro Badé, não vamos “bater fofo”.Horário de verão, um pedaço de dia ainda pela frente, o campo ladeado de gente com aparelhos nos dentes, as cigarras se “rasgando” de cantar nos arvoredos depois da cerca. Só faltavam fogos para virar festa.Calcei as chuteiras como quem pratica uma liturgia: dando peso a cada mínimo gesto. Depois a camisa de treino do Vasco para dar sorte e disfarçar a incipiente “pança”. Gel no cabelo seria demais...

Os “V-7” entraram em campo de mãos dadas e vistosamente uniformizados com direito a fotos com câmera digital e tudo. Pensei: depois do jogo vão deletar essas fotos por desgosto! Bem que disse o Alf, o Eteimoso no episódio em que ele viu a senhora vizinha peladona: “certas coisas só ficam bem na nossa imaginação!” Fui traído pelo ufanismo... Nem um minuto, um moleque, bem baixinho, chamado de “Bambu”, passou fácil por meio time e guardou a bola no barbante. Depois outro e mais outro e mais outro. Parei de contar no sexto. Não estava me entendendo com a “pelota” que parecia viva, com vontade própria e malvada. A garotada se multiplicava, só se via gente vestida de laranja no campo e jogando fácil. Estava travado, rijo, um touro praticando futebol. Quando ouvi os gritos de olé, tive uma brilhante idéia: em mais uma jogada pelas minhas costas (entenda no sentido literal), caí e já que estava caído, fingi-me de morto, recusando a enfrentar aquele mundo inóspito. Tínhamos um reserva: o professor Jésu. Bem que poderia ser Jesus. Saí...

Quando o jogo acabou, o Badé veio em minha direção e, como numa cena de “Pedro, o escamoso”, pensei: O Badé vai mangar de mim, mas um sujeito que mete um Wellaton para deixar o topete neste tom ruivinho, usa um tênis vermelho de velcro, não pode me gozar. Aí ele me falou – já jogamos juntos, agora só falta tomarmos umas cervejas lá em João Neiva.

O cara era melhor eu. E eu não merecia tomar cerveja alguma e nem um abraço de cachorra!

*****

Crônicas do Joel: www.cronicasdojoel.blogspot.com
Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 02/11/2006
Código do texto: T280603
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Sobre o autor
Joel Rogerio
Colatina - Espírito Santo - Brasil
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