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NO CAMINHO DA FÉ, PERDEU A ALMA


“A desinformação, enquadramento manipulatório por excelência, é uma arma intelectual, cujas conseqüências podem ser extremamente perigosas.”
Philippe Breton

“Desempregado, 45 anos, publicitário, procura emprego.”
O título poderia ser o pequeno anúncio de jornal recortado. O jovem promissor, responsável pelas incríveis criações que tornaram os nossos sonhos de consumo mais sofisticados, foi demitido no processo de reestruturação de pessoal da famosa Agência de Publicidade. Dezenove anos de exclusividade. Foram muitas desculpas, festas de despedida e um acordo indenizatório abaixo do desejado.
O homem retorna ao lar. O porto seguro ganha novos contornos na família, fruto de um casamento de 21 anos. A mulher, funcionária pública, a filha, estudante de publicidade, e o filho adolescente compõem o quadro de pessoal vitalício. O homem jurou fidelidade eterna diante do padre, celebrou cada nascimento, consagrou a felicidade na construção de uma intimidade densa...
Os primeiros dias, o homem descansa dos tantos anos sem férias, deixa a mente livre para absorver os ruídos cotidianos, compra um carro novo, procura um advogado trabalhista para garantir o que é devido, busca o filho na escola, caminha na rua sem destino e sem horário...
Mas os dias passam... A recolocação no mercado de trabalho parece inalcançável, surgem pequenos bicos. O homem se retrai, sente um misto de vergonha e autopiedade. Os amigos evitam seus telefonemas, a família tenta ampara-lo, mas o homem prefere os longos silêncios... Responde a todos os anúncios que não limitam a idade. Já não escolhe emprego.
Seguindo conselhos de um casal amigo, o homem visita uma igreja “moderna” e é irremediavelmente seduzido pelas cores de argumentação do pastor. O rebanho sente-se seguro longe do “mundo”. As relações com o exterior são examinadas com cuidado e as verdades desveladas ganham traços de ficção: mergulhos em piscinas de sangue, coroando as celebridades; resgate de possuídos; ruas de esmeralda e ouro para os convertidos; pregações de ex-marginais testemunham a permanência de alguns símbolos da caridade mundial nas profundezas do inferno; dízimos recompensados em dobro...
A família o acompanha. Freqüenta os cultos para fortalece-lo, sente a integração com a comunidade de muitos que também passam por momentos difíceis. O resgate da auto-estima e a prosperidade são cultuados nas intermináveis correntes. O Senhor mostrará o caminho, o que estão passando é apenas o deserto do Senhor...
Meses... Os bens são esgotados na sobrevivência. O sobrado, os dois carros, as jóias... O patrimônio da família é ressecado no deserto divino. A família batizada se transforma num exemplo a ser seguido, o homem desempregado é apenas um modelo de provação.
O promissor publicitário, acostumado à manipulação das palavras e imagens, deixa-se corromper nas palavras subliminares, perde a alegria e a capacidade de criação. Tudo existe por determinação do Senhor! As palavras divinas... O caminho da fé...
O homem abandona os entretenimentos: deixa de ouvir músicas, ler seus livros, assistir aos filmes do “mundo”... Toda arte é comprometida com as intenções do demônio, todas as pessoas que não freqüentam a Igreja estão fadadas à condenação divina. O ex-publicitário passa os dias agradecendo a Deus por ter sido iluminado, já não procura emprego, não percebe a própria exclusão.
As palavras do instrumento de Deus ganham destaque em sua solidão, suportam seu afastamento, fragmentam suas emoções e percepções familiares.
A lucidez de sua filha, que deseja um futuro promissor, e as vãs tentativas da esposa de encoraja-lo a procurar a fé em si mesmo são o estopim para o grande rompimento. A Igreja ou o mundo; o senhor ou o demônio; o inferno escaldante ou as ruas áureas do paraíso... A separação é articulada com muitas mutilações: não foi por falta de amor ou outra pessoa... Ele perdeu a alma!
Encontrei, por acaso, mãe e filha na esquina. Tinham o semblante entristecido e pareciam se amparar mutuamente. A mulher expôs com lágrimas sua separação; a filha, vacilante, sussurrou com a voz trêmula: “Hoje o encontrei. Estava com o olhar vidrado, parecia um louco... Não reconheci meu pai naquele homem...”
Cruzei a rua com as tantas percepções, tropeçando nas ausências que as duas sombrearam na narrativa. Espantada com os tons de surrealismo que costuravam a realidade. As duas eram personagens dramáticas do absurdo e o roteiro prosseguia na fé incondicional do homem. Os testemunhos eram reais, mas não havia argumentos para conforta-las.
No caminho do dia-a-dia, perdi o sorriso...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 29/01/2005
Código do texto: T2808
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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