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A bandinha

Toda cidade, cidadezinha, povoado, deveria ter a sua bandinha.
Não existe nada mais agradável que uma bandinha. Mas se tiver duas bandinhas e dentro destas duas bandinhas houver mais duas bandinhas, cor de rosas, aí o mundo vira uma grande retreta.

Me lembro, ai como me lembro da bandinha da minha cidade natal! O coreto ao lado da igreja matriz, os músicos com os seus instrumentos, e a multidão.

Às vezes ficava um pouco encabulado ao ver meu primo, coitado, tinha uma infestação de xistosa; magro, opilado e quando em quando tinha um desmaio que se supunha epilepsia. Em épocas normais, não agüentava uma gata pelo rabo. As diarréias eram uma constante e estava sempre no sesp procurando um remédio para o amarelão, quando na verdade o seu problema viria a ser diagnosticado tempos depois como o terrível xistosoma Manzoni.

Mas no 7 de setembro, ou nas festas juninas, ei-lo, belo e fagueiro, altivo e altaneiro carregando e assoprando, magnífico, uma majestosa “tuba”, no tempo em que a tuba” era tuba.

Como aquela brava criatura se superava pelo amor à arte! Passava e repassava aquelas ruas de terra batida, enchendo de sonoridade as nossas vidas, e encantando os nossos corações numa gloriosa fanfarra.

O maestro era relojoeiro. Sempre observei que o relojoeiro tem a sua santidade, e a calma dos eleitos.
Pelo fato de lidar com o tempo, ou regular aquilo que se convenciona chamar tempo, e avaliar a precariedade do instante, a sua aparência irradiava um halo divino. Parecia um santo, e criança vê santo e santas em tudo. Nas festas em que era necessário “retretar”, ele parecia mais que um super homem. A batuta coriscava. Toscanini perto dele era um maestro qualquer. Conseguia tirar vibratos divinos da rapaziada que compunha nossa gloriosa banda, chamada carinhosamente de “Lyra Resplendorense”.

O tambor e o tarol, o trombone e o bombardino!

As mocinhas vestidas com blusas brancas e saias azuis, tremiam em seus sapatinhos discretos.

O sorriso, a alegria das palmas, o encantamento tomavam conta da cidade. Tudo era beleza, alegria, paz e santidade, quando a bandinha gloriosa das minhas mais caras recordações, vinha nos acordes da madrugada, com o cantar do galo, acordar a cidade para os belos dias de outrora.

À minha cidade de interior, a de antigamente.
Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 03/11/2006
Reeditado em 21/03/2007
Código do texto: T281362

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Sobre o autor
Jose Balbino de Oliveira
Vitória - Espírito Santo - Brasil
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