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VÍCIO

Cissa de Oliveira

Quem não tiver um, que atire a primeira negação. Pois bem, essa é a primeira frase que eu escolho para pintar essa folha ávida por alguma idéia. Tenho pra mim que as folhas brancas - de idéias – sofrem de alguma espécie de solidão. São como senhoras que inventam, inconscientemente, alguma doença que as leve ao médico uma vez por semana. Quem já não ouviu sobre isso?

Talvez as folhas brancas esperem que eu fale sobre setembro mas eu escolho voltar à  questão da “negação”.  Quem me conhece sabe que sou viciada em mingau de maizena – e, pelo jeito, em falar disso. Seja como for, aí está um exemplo de vício que pode ser considerado “mania”, pelo simples fato de ser inofensivo, já que a definição de vício segue o caminho de tendência habitual para o mal; costume condenável e por aí afora.

Se o “ter vícios” é deplorável, imagine-se negá-los. Negar um problema é fechar as portas para a solução do mesmo. Talvez os psicanalistas tenham explicações para o fato de as pessoas terem vícios. Seriam genéticos? Adquiridos? É provável que filhos de alcoólatras adquiram o mesmo hábito em relação à bebida, mas até que ponto isso seria influenciado pelo ambiente ou pelo fator da hereditariedade? Acredito nas duas possibilidades. Algo como a predisposição genética e a realidade em que estejam inseridos os envolvidos no processo.

Não é segredo para ninguém sobre os riscos do uso do tabaco. Escancaradas estão todas as estatísticas sobre os índices de câncer de pulmão e da mortalidade que causam, anualmente. O que buscam as pessoas, e o que encontram, nesses vícios? Que espécies de lacunas preencherão os copos de aguardente, os cigarros e as outras drogas, verdadeiros flagelos nos tempos atuais?

Sabemos que há um intrincado de redes que movimentam e controlam verdadeiras indústrias, de forma legalizada como no caso do cigarro, ou não, como no caso da cocaína, apenas para citar dois exemplos, todo esse universo das drogas. Por causa delas, e de outros degredos humanos, países inteiros são destruídos. Está na mídia.

E falando em mídia, eu não posso deixar de pensar nos últimos escândalos envolvendo os casos de corrupção no Brasil. É sabido que acontece em outros países mas nesse momento as crescentes “novidades” mais se parecem a chuvas torrenciais sobre o povo do Brasil. Cada emenda, é um “negócio”, alguém já declarou em reportagem de bem distribuída revista, no mês de agosto. Não vou falar em partidos políticos, até porque eu sinceramente já me questiono se existe tanta diferença entre eles. Creio que a diferença resida mais nas pessoas do que nos partidos. Resta perguntar: até quando? E tudo o que eu posso fazer, é escrever umas poucas palavras e pescar no meio desse lamaçal alguns nomes para a próxima eleição. Se eles corresponderão... como sabê-lo?

Seria a corrupção um vício? Que é um costume condenável, não se nega. Acredito que seja também um desvio de caráter, assim como os vícios podem ser. E seria genético? Se for, a notícia boa é que eu terei encontrado a explicação para um já não misterioso caso de “corrupção política localizada”, a do Brasil. A notícia ruim é que não basta apenas identificar. Há que se “deletar” todos os genes envolvidos na corrupção, por mais silenciosos que estejam pois não podemos esquecer  que esse seria também um processo semiconservativo, melhor dizendo, transmissível.

Por fim eu quero me desculpar frente às possíveis folhas brancas – ou telas de computadores – pelo vício da escrita... vício? - e também por estas palavras tão realistas, afinal, a despeito de não negar a realidade ainda é importante sonhar.

Os sonhos são como aquelas flores do sertão. Elas, muitas vezes rodeadas de espinhos, têm por vício fazer mudar o ambiente, com a sua graça mas principalmente com a sua perseverança. Pensando bem, setembro pode ser em qualquer dia, portanto folhas brancas, não digam que eu não falei em setembro.

Cissa de Oliveira
Enviado por Cissa de Oliveira em 06/11/2006
Reeditado em 06/11/2006
Código do texto: T283435
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Sobre a autora
Cissa de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil
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