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SEMENTES DO AMANHÃ

         
De repente, o sono da manhã é bruscamente interrompido. O despertador, sem piedade, toca. Talvez o utensílio mais detestável da casa, mas necessário. O início do dia. A realidade sob a forte neblina que se espraia pela manhã. O frio desafia a estação das flores, mas é segunda-feira... O dia do recomeço. Do trabalho semanal. Da lida diária. A certeza do encontro com a previsibilidade. É hora de acordar e começar a pensar na dura jornada. É preciso lutar e não desistir, embora, tantas vezes o corpo peça uma trégua e o dia parece não ter mais fim.

A alma passeia e não se deixa aprisionar. O Lago Negro com suas hortênsias magnetiza o pensamento.Em meio a tanto trabalho, um instante de sonho. Entre a esperança do futuro e boas lembranças do passado, o hiato do presente. O telefone toca, sem pedir licença... O desafio do agora,  providências a tomar, problemas para resolver, pessoas para atender. O dia, sem dúvida, não reservará grandes emoções. Início do mês, contas a pagar, salário fixo, mas é preciso sempre continuar e, acima de tudo, aprender com as lições do tempo.

No meio de tantos livros, a hora de atender uma pessoa que chega. Uma senhora que entra cansada. Quase sem fôlego. Um bom dia especial, pois dado com sorriso singelo na face. De pronto, o comunicado que o dia está lindo e a cidade está florida! Novembro é o mês da primavera, mas em Gramado, o inverno teima em não ir embora...

A surpresa toma conta. A informação será verdadeira? A cortina da sala estava o tempo todo fechada... O dia foi silencioso e as horas se passaram em  “ ballet” de segundos. O sol estava lá, mas não foi visto, nem ao menos sentido... O tempo rompe a monotonia das horas e desafia a mudança de paradigmas. O sol queria entrar, ainda que tímido, no meio da sala, mas não demos a oportunidade para o novo. A janela estava lacrada e nossos olhos vendados.

As costas doloridas anunciam o termino do trabalho. A certeza que o dia foi produtivo. O sol apareceu e a neblina passou. A chuva que estava prevista não caiu e que bom que os metereologistas são falíveis. O frio matinal cedeu lugar a uma temperatura agradável.  O comentário sobre o tempo, talvez por falta de assunto, fez toda a diferença. Uma senhora estranha, envelhecida, fez com que despertássemos para a vida. Um pássaro cantou na janela e foi ouvido. O trabalho foi vencido e com a certeza de que o presente também pode também revelar boas surpresas, ainda que muitas vezes, passem despercebidas.

Logo à noite, um telefonema importante. O comunicado que o familiar que estava doente melhorou. A comida foi preparada com carinho. O cheiro inconfundível da comida caseira. Aconchego. Família. Continuidade. O sorriso eufórico pela boa nota na faculdade. O sucesso da conquista. Nota monossílaba, música real. Outra boa surpresa, pois a caixa de mensagens dos e-mails estava lotada com piadas, conselhos, um oi amigo, certificando que várias pessoas, durante todo o dia, lembraram de nós, enquanto trabalhávamos, atendíamos e estudávamos.

O céu estampa a lua, no alto, gigante, inspirando novos sonhos e a certeza de que nosso sono será velado. O aroma das madresilvas é sentido como um perfume da alma. O incenso que purifica o espírito e certifica a transparência da natureza. A força da primavera se sobrepõe a neblina dos nossos pensamentos. A abertura da janela. Um minuto de meditação e agradecimento. Oração do Pai Nosso.

A fé não se abala e não se constrange diante das intempéries da vida, pois a todo o instante éramos guiados, lembrados por pessoas e pássaros que nos garantem que nossa luta não foi em vão e que o despertador pode nos acordar, ainda que o dia comece sob uma forte neblina...

                                                           








pássaro poeta
Enviado por pássaro poeta em 06/11/2006
Código do texto: T283988

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Sobre o autor
pássaro poeta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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