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Perdas e Danos

Assumir um prejuízo é sempre difícil. Aceitar a perda também. Não é possível sair ileso, sempre contabilizaremos perdas, e muitas vezes danos.
Perdemos tempo, oportunidades, afeições, amizades, chances que a vida nos dá, insistentemente. Perdemos amores, e nem sabemos quando. Subitamente nos damos conta de fatos, nada mais do que fatos. O passado, mesmo que representado por um minuto atrás, não pode ser recuperado para ajustes. Só
podemos agir no exato presente, ou planejar o futuro, seja ele de curto ou longo prazo. Mas, mesmo assim, conscientes dessa verdade, ainda sofremos com o que passou. Com o que fizemos, deixamos de fazer ou mesmo ser. Ser, inclusive, mais sinceros conosco mesmos, mais benevolentes, menos críticos, menos exigentes. Quantas culpas já assumimos, sentindo a dor do arrependimento. Quantas dessas nos assombram o tempo todo. Não nos deixam ter paz. Por que a paz é algo tão difícil de alcançar? Talvez porque nossas
mentes e corações estejam em constante desacordo. O coração, emocional, não segue os passos do raciocínio, da razão. E, dessa forma, vivemos em conflito. Ser ou não ser, fazer ou não fazer, sempre acabando no pior, no
arrependimento. Quando aprenderemos as lições tão maravilhosamente preparadas pela vida? Quando nos deixaremos ouvir a nós mesmos? Mesmo quando a idade já nos pesa, continuamos meninos nessas questões. Voluntariosos, temos sempre as melhores intenções, vontades, desejos, e, muitas vezes, apressadamente, iniciamos projetos que não teriam a menor possibilidade de êxito, mas, mais uma vez, acreditamos no sonho, o sonho que embala e às vezes engana. E, então, a melancolia, a tristeza que nos invade sem aviso prévio, sem planejamento. E lá vamos nós, administrar mais esta ou aquela situação, na
permanente ilusão de nossas capacidades, nossas aptidões, nossa experiência para tratá-las, para resolve-las. Quão ingênuos somos, quão infantis, pequenos, fracos e deficientes. Mas orgulhosos o suficiente para jamais
admitirmos. E sempre tentamos de novo, com o mesmo e conhecido padrão. Padrão em parte importado ou recebido, mas na maior parte forjado por nós mesmos, ao longo da vida. Hábitos incorporados, costumes desenvolvidos,
aceitos até virarem verdade absoluta. A nossa própria verdade. Dissociada, muitas vezes, da verdade dos outros, daqueles que nos cercam, especialmente os da intimidade. Talvez, um dia, consigamos vencer a guerra, ou apenas uma
pequena batalha, mas questiono sobre o tempo que restará para aproveitarmos dos louros. Para no fim, enfim, podermos dizer: - Pai, cumpri minha missão.
Não há pendências, tudo foi resolvido, não devo mais nada, as perdas e os danos do caminho já foram contados e assumidos nessa imensa contabilidade. Já venceu o prazo. Já não há o que fazer, ou dizer, apenas lembrar, o que
ainda teima, reluta, em ser esquecido. Mas eis que a vida, de repente, brota de um detalhe qualquer, e lá vamos nós outra vez, incorrigíveis.
Guilherme Appel
Enviado por Guilherme Appel em 07/11/2006
Código do texto: T284355
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Sobre o autor
Guilherme Appel
São Paulo - São Paulo - Brasil, 64 anos
14 textos (802 leituras)
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Guilherme Appel