Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

MULHER INGRATA V: ISSO, DE NOVO!!!

       Estar em um relacionamento pesado, ruim, em que as pessoas se alfinetam feito bonecos de vudu o tempo inteiro é ruim. Mas se você acha que não pode ficar pior, engana-se. Redondamente. Ou no formato que quiser. A coisa pode ser muito pior quando, além do desrespeito mútuo, além daquele prazerzinho sádico de ver o outro minguando, acrescentamos ainda uma imensa falha nos canais de comunicação. Em outras palavras: eu ouço o que outro não disse, mas que está claro feito água de bica nos olhos, nos gestos e, principalmente no que não é dito nem feito. E o outro, que nem percebe a si próprio, sente-se terrivelmente injustiçado quando esta realidade lhe é apresentada.
     Lamentavelmente (ou não), as mulheres têm esta capacidade de ler nas entrelinhas e os homens (sem generalizações,por favor), só lêem exatamente as letras que estão diante de seus narizes. E não me tomem por feminista radical: os antropólogos de plantão estão aí cheios de teorias que remontam aos homens das cavernas para explicar a visão em tubo do sexo masculino. Ou seja: o que eu vejo é o que está diante de mim, o que eu ouço é o que meus ouvidos percebem e ponto. E as mulheres pensam em espiral. E é aí que desanda a maionese. É aí que a tal "discussão da nossa relação" não vai funcionar nunca. O que uma mulher diz com relação ao que sente e pressente de sua relação, para o sujeito do travesseiro ao lado não é nem grego: é algo alienígena.
      Quando a mulher já chegou ao estágio evolutivo da Toupeira Tapada, de quem já falamos antes, a coisa é ainda pior: ela vê, sente, pressente, intui, SABE o que precisa ser feito. E fica diante de uma encruzilhada: ou manda o boi para o brejo (de vez que a vaca é ela mesma) ou esconde-se na toca. Com uma diferença: a toca não é mais porto seguro ou castelo de conto de fadas. É prisão domiciliar mesmo.
      Ela vai ao trabalho como quem ganha um prêmio imenso, já que por aquelas horas poderá ser  outra que não a Toupeira, agir como acha que deve longe dos olhos vigilantes do seu Agente de Liberdade Condicional. Quero dizer, mais ou menos. O telefone ainda funciona como uma boa coleira eletrônica para lembrá-la que a vida além da Toca acaba no fim do horário comercial. É nessa fase que a Toupeira doméstica ganha um padrão mais chique: a Workalholic ou Funcionária Padrão. Ao menos em algum lugar, ela é uma pessoa.
     Muito embora a dedicação ao trabalho seja algo realmente positivo na vida de uma pessoa, ela pode ser também um problema. A Toupeira volta a se lembrar de que sabe ser algo além de Toupeira. E piora muito mais quando ela descobre que ela é realmente tudo de bom. Só que lá em casa não parece...
      Voltar para a antes segura e confortável toquinha é, agora, voltar para as algemas. Aquele que um dia emitia raios solares diretamente da retina, agora emite raios congelantes. Indiferença.  Quem antes ouvia com atenção cada pequena bobagem e divertia-se com seu jeito escrachado e brincalhão, agora dita regras. Censura. Julgamento.
     A Toupeira sabe que a brincadeira acabou. Só não sabe mais como se diz "Não quero mais brincar disso..." Por algum tempo, como quem ficou sem o brinquedo que lhe fora dado como uma espécie de prêmio, ela só tem as lágrimas da perda e o peso da culpa. "Ingrata. Tem tudo que precisa e ainda acha do que reclamar."
     Inevitável pensar:"De novo isso? Ingrata, outra vez?"
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/06/2005
Reeditado em 28/06/2005
Código do texto: T28520

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154020 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 04:14)
Débora Denadai