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Uma cidade cativante

Ele chegou por estas paragens nos idos de 1982, gauchinho de Porto Alegre, com aquele sotaque característico, não passava desapercebido de ninguém. Na bagagem muitos sonhos, na chegada muito espanto. - Mas que baita cidade, tchê! O choque foi, inevitavelmente, enorme. Tudo novo, tudo grande, especialmente o medo, o nervoso, as dúvidas - será que vou me adaptar ao jeito de viver desse povo? Sempre correndo! Todos apressadinhos! Novas experiências, todo dia, enriqueciam uma também nova, bagagem cultural. Os desafios inquietavam e excitavam o imigrante sulista. Dentre as primeiras impressões, a de que - lá na terrinha as mulheres são mais bonitinhas, mas, as daqui, mais simpáticas, mais dadas. Um dia, ao descer do ônibus, percebe, com surpresa: os passageiros, na sua maioria, agradeciam ao motorista pelo serviço. - Coisa de louco! Lá no sul? Nem pensar! Gaúcho é bicho invocado, mal-humorado, muito macho, imagine só uma frescura dessas!. Mas ele achou interessante. Outro dia, no elevador, as pessoas entravam e davam bom-dia! - Que povinho educado, barbaridade! E assim, dia após dia, a conquista foi se processando, sem sentir, sem perceber. Do orgulho e da defesa das origens, para um sentimento novo, de participação, de integração, uma coisa gostosa, meio subliminar, mas que, certamente, estava ocorrendo. Passados alguns anos, a idéia de voltar aos "pampas", deixar "esta loucura toda", e recuperar a paz, a tranqüilidade dos ares sulistas. E lá se foi o nosso gauchinho, todo faceiro, de volta à Porto Alegre. Nos primeiros dias, a alegria do reencontro, o chimarrão com os amigos, o churrasco mal assado, o matar da saudade em geral, depois, uma certa tristeza, sem explicação aparente, sem motivo, muito estranha. Surge a oportunidade de uma "fugidinha" até Sampa, para resolver negócios pendentes. No sobrevôo, antes da aterrissagem no aeroporto de Congonhas, a vista dos arranha-céus, o Ibirapuera com seu obelisco, as avenidas cheias de carros, as antenas da Av. Paulista e suas luzes piscantes, que cenário! Que sensação estranha! De repente, a consciência, a certeza, - estou contaminado por isso, é aqui o meu lugar, desta vez eu fico para sempre, nunca mais deixo essa cidade!. Lá se foram vinte e tantos anos, uma vida, uma certeza: é aqui, é esta cidade, é esta gente, que veio, como ele, na sua quase maioria, dos mais variados e longínquos lugares, é esse o lugar para viver, sempre acelerado, adrenalina circulando rápida pelas veias, cérebro sendo exigido ao máximo, o tempo todo, até para driblar os malfeitores - que também existem lá no Sul, defende -; mas um lugar onde é possível, e natural, alimentar, de forma ímpar a cultura, deixar de lado algumas tradições um tanto ortodoxas, por uma rica cultura geral, aprender todo dia uma nova lição, crescer em todas as dimensões, alegrar-se, entristecer-se, mas descobrir, ao final, a grande felicidade de se ter tornado um "paulistano legítimo", um apaixonado pela urbe, um defensor dos seus valores, um partícipe efetivo dessa imensa comunidade, formada por tantos brasileiros, e estrangeiros, que, como o "gauchinho", escolheram, sem qualquer tipo de pressão ou obrigação, esse lugar maravilhoso e cativante que é São Paulo, Sampa para os íntimos, como ele se tornou.
Guilherme Appel
Enviado por Guilherme Appel em 08/11/2006
Código do texto: T285460
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Sobre o autor
Guilherme Appel
São Paulo - São Paulo - Brasil, 64 anos
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