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Encontros

Ando pelas ruas da minha cidade e me transporto no tempo. Não são as mesmas da minha infância, pois só existia naquela época, a avenida principal. Chão batido quando seca, verdadeiro lamaçal, após a chuva.
Mas o traçado é o mesmo. As ruas paralelas e transversais eram atalhos, becos, caminhos alternativos.
Atravessando a avenida defronte à prefeitura, encontro um casal conhecido. A cidade cresceu, ficou mais jovial. A ação do tempo sobre nós é diferente. Lembro do casal, mais jovem. Ela era bem mais risonha. Sua expressão agora é de cansaço. Ele porém, tem quase a mesma aparência de anos atrás.
Mais adiante, dobrando a esquina, vejo Megui espiando da porta de uma loja, os móveis que lá estão expostos. Ela tem a mesma idade que eu. Nossa infância aconteceu na mesma vizinhança, mas não éramos amigas.
Moravam nas redondezas, várias famílias que não eram tidas como pessoas cuja amizade se devesse cultivar. Éramos pobres, elas também, mas havia preconceitos. Tanto tempo decorreu e eu ainda não compreendo a razão daquele preconceito. Foi sempre algo velado. O que consigo depreender das lembranças que ficaram, das conversas sussurradas ao pé do ouvido para que nós crianças não ouvíssemos, é que repreendiam o comportamento das moças, que as havia de todas as idades.
Elas namoravam. Talvez com mais liberdade que as moças daquela época “deviam” namorar. Em essência, elas não usavam de hipocrisia. Não eram falsamente puritanas.
Megui mora atualmente com alguns familiares, na mesma rua em que era nossa casa. Um pouco mais acima. Durante muito tempo eu a havia perdido de vista. Um dia a revi não lembro se foi no mercado, na rua ou que outro lugar. Mas lembro do olhar um tanto arrisco e do sorriso evidentemente feliz, com que respondeu ao meu cumprimento.
Provavelmente ela também nunca entendeu a razão porque nossas famílias não tiveram a mesma relação que tinham com as demais. O sorriso com que ela me presenteia a cada raro encontro pelas ruas da cidade, diz que ela não guardou ressentimento e que recebe com alegria igual, o meu sorriso um tanto cúmplice. (08/11/06)

Vitoria Lerinha Haubert
Enviado por Vitoria Lerinha Haubert em 09/11/2006
Código do texto: T286147

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Sobre a autora
Vitoria Lerinha Haubert
Sapiranga - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Vitoria Lerinha Haubert