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Ufa!



Fosse eu contemporânea dos poetas românticos e eu os mataria de inveja com esse meu arquejar constante...nem precisaria passar as noites na boêmia para ostentar enormes olheiras e um arfar de deixar qualquer colega lírico espumando de inveja.
Esse meu poetar feito entre uma crise e outra, ou até nas horas em que o ar me falta tanto e preciso correr em busca de uma droga rápido; me faria célebre entre os colegas.
E como eu deveria me compor no meio deles? Será que deveria anunciar essa dor intensa no peito, ou somente essa envergadura cansada de tanto tentar buscar o ar; me arrastando com dificuldade me apresentaria? Onde está o romantismo desse protótipo de poeta, que mal pode encarar um rodada de serenatas,  uma mesa de serestas, ou uma noite de saraus e não ter fôlego para declamar seus próprios poemas?
Bahhh, eu os deixaria irritados com esse meu ar gentio, poetando compulsivamente ao som dos sibilos do meu peito e os lábios arroxeados. Teria eu uma legião de fãs aos meus pés; orando e chorando por mim cada vez que eu adentrasse aquele hospital, em crise profunda.
Talvez eu tivesse ficado conhecida rapidamente e quem sabe teria eu uma porção de apaixonados prontos para me oferecerem ajuda, me carregarem em ato de adoração pela minha explícita demonstração de sofrimento. Seria eu o testemunho vivo de que os poetas são seres estranhos e morrem de amor...porque seus pulmões são sempre fraquinhos...e merecem cuidados especiais... ao mesmo tempo que minha rebeldia com os remédios me faria uma  heroína.
Estaria eu condenada a ter uma vida mais curta, não deveria ousar ficar velhinha, isso seria um atentado à classe; e dona que sou desse "currículo" invejável de tantos estágios entubada nos hospitais. Deveria estar apta às demonstrações mais brilhantes do meu estado de saúde crítico, ai...Não posso dizer que adoraria andar no meio dos meus colegas a vontade...muito embora pensar nessa situação, me cause um certo frisson...
Mas eu quero mesmo é poder respirar sem medo de que no próximo minuto esteja correndo riscos. Me desculpem os colegas de quem não fui contemporânea.... (ufa!)
Angélica Teresa Almstadter
Enviado por Angélica Teresa Almstadter em 28/06/2005
Código do texto: T28646

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Sobre a autora
Angélica Teresa Almstadter
Campinas - São Paulo - Brasil, 62 anos
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1 e-livros (247 leituras)
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Angélica Teresa Almstadter