Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

SEM SUSPENSÓRIOS

O Pedro Renato é o cara, me disse o Espoleta. Eu lia o jornal e o Espoleta, que era daqueles sujeitos ligeirinhos, que param de falar antes que a frase termina, estafeta de carteirinha, lia o jornal comigo, nos intervalos e entrelinhas das páginas que eu virava. O Espoleta se interessou na Coluna social, enquanto eu lia a programação do cinema, e lá ele viu o Pedro Renato sorrindo, abraçado em uma semideusa, numa grã-festa pelotense. É o cara, repetiu... Mas o Espoleta não conhecia o Pedro Renato como eu, que havia sido colega do Pedrinho no colegial, amigo íntimo da prima do Pedruca, bixo do Pedro Renato na Faculdade de Direito e que conhecia o histórico de fazendeiro e agropecuarista do seu senhor Pedro Renato. O pai do Pedro tinha uma fazenda que cabia o planeta dentro e criara seus três filhos com tudo do bom e do melhor. Desde piá o Pedro tinha o que queria: era só pedir e o velho batia o martelo. Ele era magro e narigudo, parecia aquelas máscaras do Senhor Batata. Duas orelhas de bater palma em comício, que lhe renderam o apelido de Xico Orelha. Ele odiava. Quando moleque, minha mãe me fazia vestir suspensório e levar ovo cozido pra merenda. Cruz-em-credo... Ovo cozido era de matar... Eu sabia que era bem mais bonito e esperto que o Xico Orelha, mas ele se vestia bem. Logo moleque o Pedro Renato ganhou um minibugue... Nossa mãe... a Ferrari das crianças. Todo mundo babava... As gurias todas queriam dar uma voltinha no minibugue amarelo do Xico Orelha, mas nenhuma pedia pra sentar no varão da minha magrela barra circular. Depois, o Pedrinho ganhou uma moto e, logo, um carro. Freqüentava festas caras e viajava pelo mundo. Acabamos nos distanciando. Nosso contato virou um olá nos corredores da faculdade. Eu, anarquista, o Xico Orelha fascista. Eu de camisa rasgada (já livre dos suspensórios maternos), ele de paletó (sempre filho da mãe).
Mas de todas as diferenças entre eu e o Xico Orelha, a que mais se destacava era que ele, sonegador do IR, traficante de influências e agiota conhecido, sempre fora amado e respeitado por todos. Até mesmo pelo Espoleta. Um dia, porém, eu estava no Aquário tomando um café com o Lora, que foi meu vizinho de infância e conviveu com o Xico Orelha nos remotos tempos de sua humildade pueril. O Xico Orelha passou pelo janelão e nos viu lá dentro. Hesitou, mas adentrou o recinto para conversar conosco depois de décadas. Mas agora ele era importante. Advogado com vários números e registros. Candidato a deputado federal, quem diria? O Xico chegou, sorridente, pedindo café pra três. Há quanto tempo? Como estão? E o trabalho? Pura psicologia fria... o Xico Orelha não lembrava nossos nomes. Tirou um santinho do bolso e, tentando aquecer e rumar a prosa, disse: Pôxa... que bom encontrar vocês... eu me lembro bem da nossa infância... nossas brincadeiras... Nunca vou esquecer como a gente era safado e sem-vergonha (eu quase interrompi nesta hora, dessa parte eu não lembrava... mas deixei nosso candidato continuar, sob observação atenta do Lora). Como a gente aprontava... vocês lembram que no colégio a gente tinha uma turma da pesada? Aquela molecada sempre junto, fazendo farra. Todo mundo comia todo mundo... todo mundo dava pra todo mundo... que engraçado... Vocês não lembram não? O Lora interrompeu com uma frase seca: Eu nunca dei! Como assim, nunca deu?, respondeu o Xico Orelha, com os olhos saltando da cara careca. Parecia dois ovos na frigideira... Nunca deu?, repetiu, agora tremendo. Nunca dei, reafirmou o Lora. Mas eu lembro bem... a gente corria pelado... todo mundo passava a mão em todo mundo. ´Cê não lembra não?, perguntou o Pedro Renato, olhando pra mim. Eu não!!!, respondi. Eu nunca dei em todo minha vida nem corri pelado com homem. Pelamordedeus... eu não, lhe asseguro.
O Xico Orelha guardou o santinho no bolso novamente. Notei uma gota de suor deslizar por sua testa enorme. Deu um passo para trás, como se preparando para um bote, socou um tabefe na caneca de café, jogando longe a paz do meu diálogo com o Lora, e gritou: Pois então eu também nunca dei. Nem pagou a conta, o descarado, e se mandou porta afora.
Depois de meses, o reencontrei na Coluna social, graças ao Espoleta. Estava com uma linda mulher, reconheço. Mas parecia triste. Parecia tomado de medo e segredos... Como eu posso ter sido tão cruel com o velho Xico? Como? Me culpo até hoje... tanto que nem me importo mais com os suspensórios e ovos cozidos do passado. O Pedro Renato se elegeu... andava por Brasília, mas voltava a Pelotas doze vezes por ano. Dizem as más línguas que ele nunca mais entrou no Aquário. Só toma café no Ponto Chic.
Duda Keiber
Enviado por Duda Keiber em 09/11/2006
Código do texto: T286603
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Duda Keiber
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
77 textos (6416 leituras)
1 áudios (82 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 12:45)
Duda Keiber