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TERRENO BALDIO

Ontem mesmo , eu me lembro , aqui era  um terreno baldio. Grama, sujeira, terra batida, duas árvores , era tudo o que havia. O bairro crescia em volta e para cima do terreno baldio, que resistia. As casas  foram  se aproximando , se juntando . O horizonte sumindo , ficando mais perto . As cadas dando lugar aos prédios, ás lojas, templos , estacionamentos. Novas ruas surgindo, desaparecendo .

Só o terreno baldio  resistia!

Os vizinhos trataram  logo  de arrumar,  capinar, limpar. Ali se disputava partidas de futebol de várzea , e com grande assistência, o senhor fique sabendo . O time do bairro , da rua, era imbatível. Ganhamos três vezes o Campeonato Municipal e uma vez o Estadual . Quando havia aquele programa de futebol, na televisão, jogado no CMTC , nosso time foi  convidado umas quatro  vezes . Ganhamos todas . Me lembro que havia um negrinho - desculpe, um afro-descendente - que era um azougue. Até foi cotado para o Corinthians ou o Palmeiras, não me lembro. O malandrinho  fazia lembrar o Garrimcha . Um dia  o coitado foi encontrado morto  bem ali  no terreno baldio. Não foi morte matada, porque o garoto era vivido  para fugir de problemas . Foi morte morrida , do coração - coitado. Depois disso o lugar foi sendo esquecido , caindo no esquecimento , o time foi desfazendo , os vizinhos se mudaram, outros chegaram. Vieram os prédios, cercas eletrificadas , guardas , carros. Só o terreno baldio  ficou lá.

O  dono  ninguém conheceu. Nem os mais velhos lembram dele.


Antes que me esqueça.Lá no terreno, a gente fazia quermesse todo o mês  de junho, no São João, no Santo Antônio e São Pedro . E por duas vezes  um circo  veio armar suas tendas . Tudo bem que não era  um circo  com leões e elefantes , nem daqueles malabaristas da televisão . Na verdade era  um bem mambembe , xinfrim mesmo, Com direito  á Monga , a Mulher Gorila, shows de luta livre e  teatro. Mas a gente até que gostava.

Agora o senhor esta vendo ? Colocaram  tapumes , tem caminhões, bate-estaca lá dentro. Estão inclusive furando o chão . Era inevitável , sei lá , o terreno  baldio suportou  tudo e todos , mas teve de ceder lugar para o  progresso .

Confesso que não gostei nada disso. Mas o que posso fazer ? Só  guardar as recordações comigo. Quer ver?
   
grotius
Enviado por grotius em 09/11/2006
Código do texto: T286990

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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