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MULHER INGRATA VI: A CONSCIÊNCIA INÚTIL

       Algo pode ser mais terrível numa história de amor (ou algo do gênero) do que chegar ao ponto em que se sabe que seu castelo de fadas não resiste à menor brisa e que o seu príncipe encantado, além de não dar a mínima para sua princesa (?), é um mal educado de primeira linha e não tem a menor vontade de mudar um fio de cabelo que seja do que são suas tão decantadas convicções, ainda que seja pra tentar salvar pelo  menos os alicerces? Pode haver algo pior do que chegar a esta conclusão? Você certamente pensou com seus botões aí que não. Nada pode ser pior. Certo? Errado. Se tem uma teoria muito boa e verdadeira nestes assuntos, é aquela que diz que nada é tão ruim, que com um pouco de jeito, uma mulher Toupeira não possa piorar. E muito.
     É onde a nossa Toupeira, já não tão tapada, passa para o estágio que vamos chamar de Consciência Inútil. Consciente de que ela sujou e sentou em cima, consciente de que chutou todos os paus de todas as barracas do Universo; mandou papai, mamãe, titia pra um passeio bem longe de sua vidinha amorosa maravilhosa pra poder correr atrás do amor perfeito, ela chegou literalmente numa sinuca de bico. Desistir? Fingir que não aconteceu? Encarar Deus e o mundo de novo, enfiar o rabo entre as pernas e dizer: Me fu? A Toupeira é toupeira, e como tal, orgulhosa. Não vai dar o braço a torcer assim pra toda a torcida do Corinthians e do Flamengo juntas...Nem por um decreto. Mas sabe que está numa m...de fazer gosto e tem que sair dela. Tem que decidir e decide que...não sabe o que fazer. Daí, a Consciência Inútil.
     Nossa Toupeira agora é uma Toupeira Consciente. Não é lá uma grande evolução, mas pelo menos ela já sabe que é uma Toupeira. Vai chorar lágrimas de sangue, se afastar do mundo inteiro, entrar no buraco e começar a cavar cada vez mais fundo, em busca de suas respostas...ou quem sabe, cavando bem, como nos gibis, ela chegue ao Japão na outra ponta do buraco.
     Cavar pode não ser lá uma bela coisa, mas como diz a piadinha antiga, é profundo...Pelo menos você vai afundando até chegar uma hora em que só lhe resta subir. E quando começa a subir, a Toupeira incomoda. Faz perguntas, aprende a mandar às favas algumas coisas e começa a repetir insistentemente um mantra perigosíssimo: " Com mil diabos, o que raios eu estou fazendo aqui?"
      E começa a olhar pra fora. Cuidado. Toupeiras que olham pra fora, depois de terem olhado muito pra dentro são perigosas. Ela não vai ao Japão pelo buraco que cavou, mas pode perfeitamente enterrar o rapaz do lado num buraco bem fundo, onde não possa incomodar mais.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 28/06/2005
Código do texto: T28887

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai