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Nada mudou...que pena!!!

Ápós muitos anos sem frequentar bailes e afins - meu marido não apreciava dançar - resolvi praticar, novamente, essa atividade que, na adolescência, me dava muita satisfação.
Incentivada por amigas, comecei a visitar alguns "bailes da terceira idade" e similares.
Agradavelmente surpresa, percebi que as melodias que ali eram executadas, em nada diferiam das que eu costumava dançar há décadas.
Senti-me em casa: afinal, todos aqueles ritmos eu "tirava de letra" e não haveria constrangimento algum se um desconhecido me "tirasse para dançar". Certamente eu dançaria como nos velhos tempos.
Isso mesmo "tirasse para dançar"... Eu havia esquecido essa parte! Não é que alguns homens - já sombras de um passado distante, devido aos estragos provocados pela idade, desfilavam, curvados sobre si mesmos, focando com dificuldade os óculos sobre as senhoras?
E essas, passivamente e docilmente e comportadamente
 submetiam-se àquela análise, para que o "cavalheiro" fizesse (acintosamente, diga-se de passagem) a sua "escolha". Escolha essa,  pela aparência da mulher  - tal qual uma fruta em banca de feira.
Talvez, após conferir, a descartasse, passando à próxima, mais "apetecível"...
E eles, os cavalheiros, faziam essa seleção sem o menor pudor, no pleno gozo de seus direitos como varões, sem sequer se darem conta do ridículo a que submetiam as pobres mulheres... de serem escolhidas ou... descartadas.
E nós, mulheres, na mais deslavada subserviência, aguardando a especial deferência desses insossos seres que nos presenteariam (ou não) com sua "honrosa" escolha.
A escolhida, mesmo que o cavalheiro não fosse um "gentleman", saia faceira e sorridente a bailar...
Poderíamos dizer que eu tive a "sorte" de agradar a vários desses "cavalheiros" pois acabei "sendo escolhida" muitas vêzes.
Isso me levou a meditar sobre as lutas feministas das décadas passadas, algumas das quaiseu me havia engajado nos tempos da juventude, por iguais direitos sociais, políticos, profissionais...para então me deparar com um cenário anacrônico desses, em pleno século XXI, na era da digitalização, do mundo virtual, das comunicações on line, das câmeras digitais, da urna eletrônica, da proliferação e aperfeiçoamento constante dos celulares...do desenvolvimento sem fronteiras, do ser humano...
Fiquei imaginando o que diriam minhas filhas, sobrinhas, minhas ex-alunas, se me vissem nessa situação constragedora de ficar à mercê da escolha de um "cavalheiro" para poder dançar - elas que, nas danceterias buscam seu próprio espaço, dançam no seu ritmo, executando passos de sua própria criatividade - enfim - assumindo plenamente sua situação como pessoas independentes e capazes de gerir seus próprios interesses.
É... no mundo ainda há bolsões anacrônicos, onde nada mudou...
Em tempo: percebi que nos dias de hoje algumas senhoras - não a maioria - sente-se perfeitamente à vontade para recusar o convite dos cavalheiros, que constrangidos passam a procurar outra incauta. Isso sim, é um grande avanço,  companheiras!
Serelepe
Enviado por Serelepe em 12/11/2006
Reeditado em 18/11/2006
Código do texto: T289397

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Sobre a autora
Serelepe
Curitiba - Paraná - Brasil
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