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A Família Pererê

É incontestável a presença de sacis pererês na nossa cidade. Há sacis em tudo quanto é parte. Em Copacabana, no Centro e principalmente no Catete. Em toda parte nos deparamos com eles. Mas um dia desses, me deparei com algo nunca visto. Deparei-me com uma família de sacis. Estavam todos sentados na calçada da rua do Catete rindo e brincando. Eram quatro. Saci pai, saci mãe com um neném provavelmente saci no colo, e uma filhinha saci. Um a cara do outro. Eu nunca tinha visto isso. O saci pai sentado no chão com a filha brincando com um elástico colorido. A mãe saci com  o neném, pedia dinheiro para quem passava. Eu nunca tinha me dado conta que no Brasil saci pede dinheiro na rua nos dias de hoje. Fiquei parada ali perto pra ver direitinho essa história de família saci. Onde será que eles se encontram, será que só se reproduzem entre si? Acho que esse não era o caso. Acho que não eram sacis congênitos e sim adquiridos.  Nas histórias do saci, da literatura, os sacis espantavam os viajantes pedindo fumo. Ali espantavam pedindo dinheiro ou pelo simples fato de existirem. Nos contos eles sumiam com os pertences das pessoas quando elas mais precisavam, só de pirraça. Ali eles me pareciam tão inofensivos e cansados.  E não tinham chapéus vermelhos, nem cachimbo. Não tinham nada. Só um elástico de cabelo colorido rosa. Aquela imagem de sacis correndo pelas florestas há muito tempo eu já não tinha, mesmo porque eu conheci o saci mais famoso numa das gravações do Sitio do Pica Pau Amarelo, e ele chegou de carro, usava bermuda de surfe e camiseta.  É a modernidade. Mas me indignou ver aqueles sacis numa condição tão estranha. Pensei até em fundar uma ONG protetora dos sacis do Rio. Mas aquilo parecia não me dizer respeito apesar de saber que no fundo dizia.  Os nossos sacis estão abandonados e nem correm mais pelas florestas alegres fazendo estripulias. Aí pensei, que talvez eles não fossem sacis. Será? Vai ver que é isso. Eles são uma farsa. Não são sacis coisa nenhuma. Imagina... sacis, no Catete, que não somem com as coisas dos outros nem fumam cachimbo... Resolvi esquecer. Tava um dia quente, entrei na lanchonete e pedi um copo de água de coco. Na hora de pagar comentei do calor que fazia. E a caixa respondeu;
- Pois é, e você vê só, tô morrendo de calor e não sei onde eu enfiei o meu elástico de cabelo...
- Que cor?
- Rosa.
Patrícia Mess
Enviado por Patrícia Mess em 12/11/2006
Reeditado em 12/11/2006
Código do texto: T289454
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Sobre a autora
Patrícia Mess
Maceió - Alagoas - Brasil, 35 anos
43 textos (2485 leituras)
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Patrícia Mess