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O RIACHO DOS MENINOS PELADOS

O RIACHO DOS MENINOS PELADOS

                         Rangel Alves da Costa*


Os mais velhos já sabiam e todo mundo ficava sabendo depois, até mesmo a gurizada que só levava a vida a fazer reinações verdadeiramente sertanejas: não adiantava cair a maior trovoada nas redondezas, se não chovesse forte lá pelas cabeceiras o riachinho não botava cheia.
Se chovesse pingo pesado lá na nascente do Jacaré, lá debaixo da serra aonde ele começava solitariamente a surgir, era certeza de que não demoraria muito pra que meio mundo de água viesse derrubando tudo que encontrasse no estreito leito.
As primeiras águas eram tão fortes que levavam animais, gente, árvores, garranchos, sujeira, tudo que estivesse empatando sua feroz passagem. Contudo, porque se misturando com tudo que encontrava pela frente, eram águas sujas demais, grossas, gosmentas, doentias.
 Daí ser preciso esperar ao menos mais três cheias seguidas para que o leito do riachinho ficasse em ponto de banho. E os meninos sabiam que já podiam deitar e rolar naquelas águas, subir nas pedras e fazer batim, lavar o corpo e a alma sem medo, quando os bichos se abeiravam nas margens para beber, quando os passarinhos voavam de pedra em pedra e quando a cor escurecida dava lugar a um claro-esverdeado.
Assim que o riachinho estava cheio e em ponto de banho, então começava outro jeito sertanejo de se comprazer com o que tem e pelo que tem. Aqueles meninos que dias atrás se contentavam em caçar passarinhos com arapucas pelas matarias esturricadas, jogar bola nos descampados, brincar de pião pelas calçadas de areia, correr nos cavalos de pau, agora tinham outra maravilhosa opção.
A gurizada saía de casa logo cedinho, e só não se adiantava a isso porque esperava o pai sair primeiro para trabalhar. Ficava ajeitando a ponta de vaca no curral no cantinho do quintal e de olho quando o velho colocava a enxada e o enxadeco no ombro, o alforje espalhado pelos quartos, espalhava o chapéu de palha na cabeça e se benzia pra Deus ajudar.
Enquanto seguia para o trabalho o menino corria para o riachinho, pé ante pé, que era pra mãe não ver e gritar que nem pensasse em sair naquele tempo de chuva. Não adiantava, pois se ela abrisse a boca nem o eco alcançaria mais os pés que corriam descalços e sem espinho ou pedra que amedrontassem.
Parecia um encontro marcado, uma reunião, uma convenção dos meninos pelados. Isso mesmo, pois antes mesmo de chegarem à beirada do riacho já iam tirando a roupa, jogando o calção pra um lado e camiseta pro outro, e logo iam se jogando naqueles locais que sabiam sem bicos de pedras nem pontas de paus. Era o instinto menino, a sabedoria sertaneja já existente naqueles molecotes protegidos pela sorte dos desvalidos.
Chegavam três, quatro, cinco e mais meninos, e depois dos primeiros mergulhos as conversas em cima das pedras, deitados pelos barrancos, trepados nos pés de paus que sobressaíam acima das águas. Conversa de passarinho, conversa de sabiá e colerinho, bate-papo de bola de gude, de pipa de papel que não valia nada em tempo de chuva, da bola nova que alguém tinha sido presenteado e ainda não tinha convidado ninguém pra brincar.
Uns magrinhos, outros mais cheinhos, estes mais altos, aqueles baixinhos sem ter jeito de crescer, aqueles moreninhos, outros galeguinhos e sararás, outros mais parecendo peloco de papagaio quando nasce, feio, quase chegando ao esquisito.
E todos pelados, como vieram ao mundo, sem vergonha nem pudor, sem malícia nem olhares de mangação, apenas pelo prazer de estarem ali debaixo do sol, dentro da água, brincando, se divertindo, fazendo demais aquilo que nem sempre é fácil no mundo sertanejo, que é tomar banho com a constância merecida.
Muitos chegavam ali às seis da manhã e só voltavam pra casa ao entardecer, depois que a família já tinha feito a busca pelos arredores e prometido arrancar o couro do safado assim que ele fosse encontrado. E chegavam desconfiados, queimados pelo sol de beira de riacho e já tirando novamente a roupa para apanhar na bunda.
E a mãe caminhava na direção com um chicote na mão e depois passava a mesma mão pelo cabelo, mandava tomar outro banho com água limpa e terminava num abraço e num beijo. Vá logo tomar esse banho e venha comer, seu safadinho teimoso! E no dia seguinte era a mesma história, o mesmo banho, a mesma meninice sertaneja gostosa demais.





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa
Enviado por Rangel Alves da Costa em 08/04/2011
Código do texto: T2895972
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Sobre o autor
Rangel Alves da Costa
Aracaju - Sergipe - Brasil, 51 anos
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