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                              Sem fábula, mas com moral 

                                   Rosa Pena


Ela foi ao encontro marcado. Primeira vez que eles estariam a sós.
Não sabia bem o que ele queria, muito menos o que ela própria queria. Havia entre eles uma grande faísca de atração e uma imensa admiração. Por isso fizeram questão desse encontro sem terceiros. Passar a limpo às emoções trocadas de longe.

Quando desceu da barca, num lugar para ela desconhecido, viu-o de longe acenando. Esqueceu toda e qualquer convenção e saiu correndo pros braços dele. Ele abraçou-a, com uma força gostosa e muito carinho, tirando seus pés do chão e sua cabeça do ar. Beijaram-se de mansinho. Deram-se as mãos, que já estavam enamoradas sabe-se lá há quanto tempo. Foram caminhando até um bar de frente pro mar. 
Sentaram-se e ele foi pegar café. Ela olhou para ele com ternura, tão homem e tão menino. 

Ventava muito, os cabelos dela voavam no rosto. Ele retornou e sentou-se bem coladinho nela. Tão mulher e tão menina. 
Nada falou, apenas tirou os fios para ver o rosto sorridente dela. Tomaram o café dessa forma. Silenciosos sentindo a deliciosa proximidade, só o Phil Collins de testemunha. De repente, o lugar começou a ficar movimentado, então ele sugeriu que andassem pela orla. Deram-se as mãos, que já se sentiam namoradas. Ele perguntou pra onde deveriam ir. 

Ela disse baixinho: - Seqüestre-me!

Ele levou-a para um quiosque deserto na areia, bem próximo ao mar. As mãos se soltaram sem querer e da forma mais tranqüila começaram a conversar sobre os sentimentos, as vontades, os desejos, os acertos e erros individuais. Ambos falaram de suas vidas, com calma, cada um na sua vez. Depois sobre o mundo, divergiram sem pecados, concordaram sem abstinências, se desnudaram de preconceitos e se vestiram de ideais durante horas. Sabiam ouvir sem ferir. Começou a cair à tarde e ela avisou da hora, tinha que voltar. Ele subitamente a abraçou de forma louca, beijou seus lábios, seu colo e um dos bicos de seus seios, único lugar bem alvo de sua pele morena. Não foram adiante. Soltaram-se devagar com força. Sabiam que a história deles era outra, tão diferente desse roteiro ao som de Phil Collins.
Levou-a de volta até a barca, foram com as mãos entrelaçadas, agora elas tinham virado amigas. 

Um tchau tranqüilo, mas não menos bonito, para um encontro intenso.

Ela voltou de olhos fechados ouvindo música ambiente. Chegou em casa e deitou-se rápido, estava sonâmbula. Dormiu direto e quando amanheceu ela relembrou o sonho que teve, tão fantasioso, onde adormece a paixão e acorda a razão, sem grito, sem raiva e sem dor. Pura utopia no século XXI.
Beliscou-se e foi tomar um banho apressado. Uma olhada em seu seio e viu uma pequena mancha arroxeada. Sorriu. Não foi primeiro de abril.
Lembrou com afeto do quase amante, agora distante, e do amigo adquirido, agora tão próximo. Contente pegou um CD do Chico e a chave do carro. Phil Collins voltou para a estante, lugar onde ela guarda seus momentos de ouro.

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 13/11/2006
Reeditado em 04/07/2008
Código do texto: T289854
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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