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Estampas Eucalol

Todo domingo era sagrado, passávamos na casa de meus avós maternos em Coelho Neto, subúrbio do Rio de Janeiro, e eu, menina de apartamento na Tijuca, adorava brincar no quintal, meus pés na terra, as mãos na roseira, os olhos percorrendo tudo à minha volta guardando o tempo prá mim. As lembranças são as melhores possíveis: a jaqueira, comigo-ninguém-pode, o coqueiro, manacá, soldadinho de chumbo nas janelas, o pingüim em cima da geladeira, o cheiro de tangerina, cheiro de infância, cheiro de Eucalol.
Lá se vão os tempos daquele sabonete verde que trazia na embalagem as estampas perfumadas que meu tio guardava, cuidadosamente, numa caixa. E lá ia eu no armário dele vasculhar. 
Na mesa de jantar eu colocava todas as figurinhas espalhadas prá depois arrumar tudo de novo na caixa. Não tinha muito que fazer com elas, apenas admirar, eu admirava. 
Por várias vezes pensei em furtar a coleção, mas sempre me faltou coragem. Talvez porque, essa, era uma vontade solitária. 
Alguns anos depois, adolescente na companhia dos meus primos, furtamos de um outro tio alguns discos do início da carreira dos Beatles. Mas ele nunca soube disso. Os discos estão comigo até hoje. Mas as estampas não. Hoje eu trocaria os discos por elas, sinceramente. 
Já rodei algumas lojas de antiguidades, algumas numismáticas, mas o máximo que consegui foram pedidos de informações e ofertas por elas. Busquei, então, na internet e encontrei um fato que me motivou a escrever sobre essa lembrança cheirosa que tenho. 
Na época em que foi lançado, lá pelos idos dos anos 20, os sabonetes eram, somente, de cor rosa ou branca. Por ser de cor verde houve uma rejeição imediata do consumidor. Na tentativa de reverter a situação foi promovido, ao público, um concurso de poemas cujo vencedor foi Fernando Reis, do Rio de Janeiro. 
O poema foi publicado na revista Fon-Fon em 1928: 

“Banho, para uns, é de sol;
Outros de mar o preferem;
Uns banho de igreja querem;
Mas eu cá todo me assanho
Se penso em tomar um banho
Com sabonete Eucalol.”

Não houve a resposta esperada, as vendas ainda não eram satisfatórias, o que só ocorreu com o lançamento das estampas coloridas que traziam temas dos mais variados, desde a natureza até a segunda guerra mundial. Foi um sucesso, entre os adultos e as crianças, que impulsionou as vendas colocando de vez a marca no mercado da perfumaria. 
Em 1957, ano em que eu nasci, foram emitidas as últimas séries encerrando, assim, as emissões dessas estampas que meu tio colecionou em grande parte. Mas a coleção se foi, por um equívoco, numa fogueira junto com várias revistas da época, Revista do Rádio, O Cruzeiro com capas desenhadas, recortes de jornais, e outras relíquias das quais, no momento, não se tinha noção. Fato, este, perdoado. 
Mas o que eu não perdôo foi não ter cometido o furto. 

***

Quem não conhece, vale a pena conhecer o site: www.brasilcult.pro.br 

***

Quem não leu, vale a pena ler a crônica "Yes, nós temos Eucalol" de Aldo Guerra.

Cristina Nunes
Enviado por Cristina Nunes em 13/11/2006
Reeditado em 16/11/2006
Código do texto: T290152

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Sobre a autora
Cristina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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