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Sobre as marcas do tempo


 
Parei! Hoje dei meu basta.
Não sei bem em que parte do caminho deu o vermelho. Não sei também se andei pela contra-mão. Olhei ali, bem à frente, e não achei o horizonte que por tantas vezes desenhei em meus versos.
Quis calar,  ficar quieta, encolher nos meus sonhos, aconchegar na minha própria sombra. Lembrei de palavras, nenhuma em específico, apenas das muitas que já ouvi na vida e que já falei também. Quis o silêncio mas vieram as lembranças em cascatas e não tive como represá-las. Talvez fosse melhor não tentar e não tentei nada, apenas naveguei, deixei o corpo boiar no tudo revestido de nada onde quis estar.
Uma ilha, uma praia, um céu, ou aqui mesmo, no escuro do meu quarto sobre a cama que por tantas vezes acolheu minhas lágrimas.
Não senti o tempo passar, talvez também por não estar presa a ele, pelo menos não nesse momento. Também quis parar o vento, os ponteiros de todos os relógios e mais uma vez os sonhos que não viraram estrelas, pelo menos não essa noite...
A lua apareceu... Olhou pela janela do quarto e me viu assim, vestida de passado, cabelo despenteado mas não muito, nua de versos, nua de mim e mal sorriu aquele sorriso pálido e já se foi. Pra onde? Também não sei, mas agora não importa porque até a lua eu quis silenciar essa noite.
Quis o preto no branco, meu céu sem as cores que sempre deu inveja ao arco-íris.
Meus olhos também pararam em algum lugar do tempo. Não quis buscar história nem mesmo da minha própria vida, não quis conjugar nenhum dos verbos que por tanto tenho conjugado no decorrer do meu caminho.
Perdi a leitura dos poemas, não vi as rimas nem o canto dos versos. Perdi a luta, desisti ou pedi uma trégua, hoje não quis lutar, não quis brigar, não quis gritar as injustiças, os amores, os desencantos.
Não quis alimentar dores nem acalantos. Não quis ser o que não sou e nem mesmo o que sou. Quis apenas parar, deitar no centro do universo sem ser eu esse centro. Passar desapercebida entre a multidão, chorar escondido ou abertamente, não importa, mesmo porque me quis sozinha, assim como nasci e como vou morrer. Nasci um dia e um dia morrerei, isso é fato!
Mas não quis hoje falar de verdades, nem as meias, muito menos as inteiras, também não quis as mentiras, as grandes que já tanto encontrei pelo caminho e nem as pequenas que dizem ser saudáveis. Não vejo nada de saudável em mentiras... Mas isso também pouco importa, não quis mesmo julgar o mundo ou as pessoas, não quis contrapor nem me indispor com nada nem com ninguém.
Entre a luz e a sombra quis apenas o neutro, nem o nada, nem o tudo. Estar ou ficar, partir ou chegar, nada disso eu quis, não hoje. Hoje não cantei meus encantos nem tão pouco os desencantos, não fui para os lugares que muitos me mandaram, nem os belos nem os feios, não rezei, não pedi, não doei porque não quis ter nada hoje pra doar. Hoje parei, olhei pra grande roda que sempre gira e só olhei, não impedi o seu giro nem a impulsionei.
Não me apressei nem descansei, apenas olhei o mundo nos olhos pálidos da lua que apareceu aqui na minha janela, acho que sentindo falta do poeta e dos risos e dos cantos e dos sonhos, olhei, só olhei, mas olhei o nada instalado dentro de um tudo que muitas vezes, às vezes sempre, nunca quis...
Hoje parei, parei por simplesmente querer parar...
 
                  24/10/2006
Aisha
Enviado por Aisha em 13/11/2006
Código do texto: T290186
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Sobre a autora
Aisha
Jundiaí - São Paulo - Brasil, 50 anos
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Aisha