Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

NERVOS DE AÇO II

Morando . Esta  era  a situação  em que se encontrava , quando acudiu-lhe intensa  e selvagem  vontade de extirpar com suas próprias mãos  o coração ainda pulsante. O coração vermelho e amarelo  pela gordura  que nunca deixara  de comer . Um coração  que não  sofrera tanto , mas  que também não se fizera por menos . Rodeado de pontes de safena, era um primor de engenharia.

Mas não estou aqui para falar de cirurgia, cardiologia  ou outra ciência médica . E sim  da dor  súbita que tomou-lhe certa tarde  quando viu passar  pela rua uma moça.

Não era uma moça qualquer , muito embora  fosse assim comum em seu aspecto físico. Sem muitos atrativos, sem muitos dengues . Foi a simples visão da moça  de chapéu largo e casaco cinza  fino, que provocou  tamanha ânsia no coração capenga do  moço quase velho.

Assaltaram-lhe recordações  doces , outras amargas . Lembranças  de tardes de Sol  no parque da cidade , das nuvens encasteladas  que os dois, deitados  na relva, brincavam  de fantasiar. Recordações daqueles deliciosos quatro meses vividos sem sentir e sem pensar. Recordações das noites  em vigilia que passava aguardando por ela , que sempre se atrasava se desculpando  da visita de uma tia distante ou doenças caprichosas de mulher . Segredos que só ela conseguia manter longe das desconfianças dele , que fazia junto do piano  lindos versos de amor.

Parecia  que tudo  ocorrera  ainda ontem , mas já se  iam mais de vinte anos . Anos que passou  em  dissipação  em orgias , nos braços de outras quaisquer .

Tudo  porque levaram  seu bem . Um rapaz  bem mais moço , inzoneiro , cheio de lábia e dinheiro , enrodilhou -a  em tão tórrido  e apaixonante amor  que a separação  foi muito rápida e fulminante.

E por meses  ainda via  a amada abraçada , beijada , acarinhada , nos braços que nem um pedaço do seu  pode ser .

Por isso  o susto, o  súbito arfar  do coração  sofrido , foi como  a última despedida  do sonho acalentado . Aquele misto de morte e de dor que só os amantes conhecem.

( Peço vênia a Lupiscinio, Custódio e Noel  por ter  emprestado seus versos)  
grotius
Enviado por grotius em 13/11/2006
Código do texto: T290363

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
444 textos (16459 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 02:20)