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BREJO SECO... BREJO MOLHADO...

- "Povo da minha terra! Se eleito for, prometo..."

Dr. Julião, fazia um discurso inflamado, em uma pequena cidade do Sertão do Nordeste.
Eram mais ou menos 7.000 habitantes, 15 ruas, 1 praça com a Igreja Matriz; mas o "voto de cabresto" ainda era mantido por lá.
A palavra de Padre Timóteo, valia mais do que nota de dólar, mas a Igreja, não se envolvia em política, apesar dos dois candidatos, Dr. Julião, dentista, do partido da situação e Sr. José das Rosas, comerciante muito próspero da região, do partido da oposição, prometerem a reforma da Igreja.
Dentaduras não faltavam no discurso de Dr. Julião e cestas básicas saíam do armazém do Sr. José das Rosas, como as rachaduras que se formavam na terra castigada pela seca.
- "Meu filho, Dr. Julião é do partido de seu bisavô e sempre foi muito bom para a nossa família" - argumentava D. Josefa, mãe de Francisco da Silva, que fazia campanha para o comerciante, pois tinha o sonho de mudar a política da cidade, acreditando, com isso, resolver os problemas.
A seca continuava a corroer o coração e o estômago do povo do lugar. A fome e a sêde eram a plataforma política dos ambiciosos que faziam disto os seus trampolins para Brasília.
E chegou o dia da eleição, e como sempre, quem matou a fome do povo e prometeu acabar com ela, venceu; e nisso a oposição havia sido mais esperta. "Para que dentaduras, se não temos o que mastigar?", era o seu slogan.
Sr. José das Rosas, tornou-se Deputado Federal. Foi morar em Brasília e nunca mais se ouviu falar dele.
A seca prosseguiu. A irrigação não chegou. A fome aumentou. A mortalidade infantil cresceu. E o Sr. José das Rosas desapareceu.
Ouvia-se dizer que há água debaixo do solo rachado do Sertão Nordestino; mas, não há interesse em irrigá-lo. Afinal, quando vier novamente o período eleitoral, como comprar votos, doando cestas básicas à um povo sem fome? Pois, o Sertão irrigado, será o maior produtor do País. Há sol o ano inteiro; solo não falta; falta água! E, se ela vier, ninguém segura o Sertão. Irá até exportar alimentos. o Brasil crescerá e será o maior produtor mundial. Mas, não há interesse... O bem-estar do povo, sempre esbarra na má vontade dos políticos corruptos que só querem se eleger e se aproveitam da "indústria da seca" para isto.
Foi aí, que surgiu no Congresso, a idéia da legalização dos cassinos e, alguém disse que deveriam levá-los para o Sertão Nordestino. José das Rosas, foi o primeiro a votar contra. Fez um discurso inflamado, desta vez, afirmando que o povo sofreria com o entra e sai de estranhos e blá, blá, blá... Desculpas esfarrapadas, porque se isso viesse a acontecer o seu "curral eleitoral" iria para o brejo e, "brejo seco".
A Lei passou. E, o cassino se mudou para o Sertão Nordestino.
No dia seguinte, ao início das obras, apareceu como que milagrosamente a solução para o problema da seca, afinal, os ricos iriam para lá e não poderiam encontrar o solo maltratado; e os hotéis de luxo precisariam de água para preparar suas iguarias.
E, Córrego Seco virou Nova Las Vegas.
Seu povo era bonito, rico, vestido luxuosamente. Os jegues que carregavam carroças de palmas que saciavam a fome, foram substituídos por luxuosos carros importados. E o povo esfomeado, maltrapilho e sofrido daquele lugar? Será que enriqueceu? Que nada! José das Rosas, o Deputado Federal, representante do lugar e eleito pelo povo da Região, para cuidar de seus interesses, deu um jeitinho de expulsá-los. Afinal, não poderiam se misturar com gente fina. Não votavam mais nele, que a essa altura já havia mudado de opinião a respeito dos cassinos e seu "curral eleitoral" era outro. O brejo já tinha água; e com fartura.
Vera Ribeiro Guedes
Enviado por Vera Ribeiro Guedes em 29/06/2005
Reeditado em 29/06/2005
Código do texto: T29083

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Sobre a autora
Vera Ribeiro Guedes
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 54 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 11:51)
Vera Ribeiro Guedes