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MULHER INGRATA VII: O NASCIMENTO DA MULHER PENSANTE

         O que acontece quando uma mulher, já caminhando para a maturidade, com um razoável grau de inteligênia, detecta que seu castelo inexpugnável não passa agora de um amontoado de ferros retorcidos, tijolos podres e madeira em franca decomposição? Ela abandona os escombros e vai cuidar da vida, não é? Esta é  a opção mais lógica. Nós todos sabemos disso. Mas alguém aqui disse que há lógica nos sentimentos? E não há mesmo. Especialmente porque abandonar os escombros exige dela a capacidade de admitir, principalmente para o espelho, o fracasso estampado em cada cômodo da casa e em cada ruga de cada noite mal dormida pensando numa saída.
      Não. Ela não vai abandonar nada ainda. Não ainda. Ela terá que enfrentar o que um santo bem conhecido chamou de "noite escura da alma". Ela irá descobrir que a noite pode ir ficando cada vez mais escura e aterrorizante dentro dela antes de conhecer a grande verdade das coisas: que quanto mais escura se torna a noite, mais próximo está o alvorecer. Mas até lá, vai padecer comendo o pão que ELA amassou junto com o Diabo em pessoa. Vai continuar dormindo com o inimigo e culpando-o secretamente por todas as suas misérias emocionais. Ela precisa se defender. Atacar é uma boa defesa. E nada melhor que o Diabo por companhia para ser seu bode expiatório.
     Se você está imaginando que ela vai infernizar o já quente inferninho em que convive com seu Diabo particular com gritos, ofensas e agressões, você é muito ingênua. Uma mulher que já chegou até aí, que já foi pisada de sobra, já fez a grande alquimia ao avesso: transformou ouro em merda e seus sentimentos viraram ressentimentos. Lágrimas contidas mas expostas a quem quiser ver, dias e noites cansada e doente, e aquela cara de "não é nada não, meu amor...mas o culpado é você" são atitudes muito eficientes para fazer um bom inferno na vida de qualquer um. Mesmo que o qualquer um seja o Demo em pessoa. E nem ela percebe o que está fazendo. E tampouco que a primeira atingida por esta imensa bomba  de detritos emocionais é ela própria.
     Entretanto, ainda lhe resta algo que a genética ou a natureza, por sorte, lhe deram: inteligência. E ela consegue lembrar que tem um pouco desta coisa guardada em alguma gaveta empoeirada de algum canto sem uso. E resolve tentar pra ver se ainda funciona.
      Livros e mais livros são devorados. Desta vez, não para salvar o casamento, nem salvar ao outro (que ela começa entender que quem pariu que embale), mas para salvar-se do naufrágio iminente. Ajuda profissional, por que não? Se tem alguém com a cabeça em ordem pra botar ordem no seu caos interior, vamos lá. Pior do que está, não pode ficar...
      Será? Lembra da teoria? Não há nada tão ruim que não se possa piorar. Resta saber para quem. E agora, a vida fora da toca vai indo bem, parte de sua dignidade vai sendo resgatada na convivência com pessoas que começam a mostrar-lhe um espelho bem mais atraente do que o que ela vê em casa...Ainda há o grilo falante, a Madre Tereza das convenções sociais e a culpa, a eterna culpa. Mas quando se começa a pensar com a cabeça, a culpa também pode ser questionada. E a velha Toupeira começa a dar sinais de esgotamento. A Consciência, antes Inútil, começa a cobrar ação. Inicia-se o processo de ressurreição. Meio parto, meio ressurreição. Começa a surgir uma criatura, com algo do que já existira antes, mas muito melhorada pela idade e pela experiência: A Mulher Pensante.
     Acho que não é preciso fazer pesquisa pra responder esta pergunta: qual a porcentagem de homens que gosta de conviver diariamente com uma mulher que pensa? Diz aí você: quantos você conhece? No dos outros é bom...mas dentro de casa? Quantos?
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 29/06/2005
Código do texto: T29132

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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