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TODA TRAGÉDIA TEM UM NÚMERO - O CASO DO 499

O Caso do ônibus 499, urgente! É para se pensar, não se para assistir.


"...mire, veja: o mais importante e bonito do mundo é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou." Guimarães Rosa.



Quando eu era criança, vez por outra eu ouvia: “O que mais ela quer? O homem é um santo, trabalha, põe comida em casa e nunca levantou a mão para ela!”. Se por um acaso eu perguntasse: “- E homem pode bater em mulher?”, o castigo era certo, dedo em riste me apontaria o caminha da porta: “- Saia já. Isso não é assunto de criança!”.

Na minha adolescência isso parecia uma realidade distante, longe dos ideais juvenis, coisa de velho, pois nós, mulheres e homens, lutávamos juntos pelo direito de expressão. Era arte o que fazíamos. Quando tive filhos, como um papagaio que não pensa eu repetia: “Menino, solta sua irmã! Homem não bate em mulher!”; ou ameaçadora: “Menina, não faz assim não com seus irmãos! Olha, se eu deixar eles te pegarem...”.

Hoje saí para jantar e uma chuva me compeliu ficar no restaurante mais tempo que eu queria. Todos de olhos na TV a dar gargalhadas como o Casseta & Planeta. Eles satirizavam o seqüestro do ônibus 499, ocorrido em 10 de novembro de 2006. Episodio em que o Senhor André Ribeiro, numa crise de desequilíbrio emocional, apontou uma arma de fogo na têmpora sua ex-esposa, Cristina Ribeiro – é dispensável dizer que isso é uma ameaça de morte – e manteve reféns os demais passageiros, motorista e cobrador que se encontravam no transporte coletivo. De dentro do ônibus 20 pessoas, aproximadamente, assistiram à cena de tortura à ex-esposa porque esta não queria “voltar” para o agressor. De fora do ônibus o Brasil de ponta a ponta assistiu a essa sórdida trama pelos televisores e algumas pessoas a pouca distância do local. A principal vítima foi torturada por longas 10 horas. Uma tragédia vergonhosa e aviltante. Mas, a cena que se mostrava no quadro dos seus Cassetas era o humorista Reinaldo Baptista fantasiado de herói, o “SUPER CORNO”, que descendo de um ônibus, entre risos, dizia mais ou menos isso:

- Tudo está resolvido! Todas as reivindicações dele serão atendidas.

-Mas o que ele queria? Pergunta um suposto repórter.

- Nada de mais, um ônibus com teto solar para corno e ar cornicionado....


Entre expressões chulas a questão da violência à mulher foi tratada como se fosse motivo para riso. Um mero piti de corno por uma vadia qualquer. Escracho por escracho, no fundo a mensagem que me chegou foi a de que a violência em puta é perdoável. As pessoas se sentam em frente a T.V, assistem porcarias, riem e concordam que o agressor era “cornudo” e que a vítima era uma “puta”.

É o total desrespeito ao ser humano. Não vou me ater em desigualdades de sexos. Quero dar um crédito a inteligência do ser pensante. Todos erramos. Minhas tias, mãe, avós erraram e eu perpetuei o erro, assim como muitas outras mulheres e homens. A criança tem que ser educada no sentido mais pleno dessa palavra. Erramos quando dizemos às crianças que há assuntos que elas não devem escutar, saber, entender, ou que o contexto de uma repreensão feita por adulto não lhes deva ser justificada. A aprendizagem é um processo lento, gradativo.

Assumo somente os meus erros e errei ao dizer para os meus filhos: não batam em mulher! Eu deveria ter dito a todos eles, inclusive à filha: não batam! Deveria ter explicado que bater é um sentimento impulsivo e que é uma agressão a si e a outra pessoa. Deveria ter dito que os sentimentos contrariados não são resolvidos de uma hora para outra, que a agressão só gera medo, rancor e raízes de amargura. Que a vontade de bater é natural, mas que tem que ser controlada. Que a dor tem que ser extravasada de outra forma. Não quero dizer que se as educássemos assim elas tivessem entendido tudo da vida logo, nem jamais colocassem o dedo na tomada; é comum a toda criança o descobrir sozinha. Mas, o constante diálogo faria com que elas compreendessem, mesmo que tardiamente - o que vem a ser mais importante sobre vários aspectos - que as questões de sentimentos e rivalidades não se resolvem à força. Eu as teria preparado melhor para a vida, formado adultos capazes de pensar e entender seus sentimentos, suas atitudes, índoles, ímpetos, emoções exacerbadas, controle de si mesmas, em qualquer situação, independente do sexo e da força física que tenham. Mas, isso nunca é tarde para se aprender, como dizia Guimarães Rosa, somos seres em construção.

Com isso não quero dizer que um desajuste nunca venha ocorrer em sociedade, como foi o caso em questão, quando muitas pessoas ficaram reféns de um indivíduo em desequilíbrio. Mas que esses casos seriam mais raros e tratados com mais rigor; menos complacência e mais respeito. Não é o caso de ser politicamente correto, mas ser humanamente correto.

Fiquei pensando depois do quadro do Casseta & Planeta, terá sido ele politicamente incorreto? Caramba e se este caso tivesse acontecido fora de um ônibus - num lugar que ninguém se atreve a entrar em ser convidado - e se somente a ex-exposa do camarada fosse a única exposta à sua violência, o que teria acontecido? Seria a vítima só mais um dado para a estatística da violência doméstica? E, na pior hipótese, será que e se alguém estivesse assistindo de longe à cena, será que não teria o ímpeto de gritar:

“- Acaba logo com isso! Mata de uma vez essa vadia, seu corno!”.



14/11/2006.

Divina Reis Jatobá
Enviado por Divina Reis Jatobá em 15/11/2006
Reeditado em 07/07/2008
Código do texto: T291941

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Sobre a autora
Divina Reis Jatobá
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 55 anos
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Divina Reis Jatobá