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EM QUE ESPELHO FICOU A MINHA IMAGEM ?

Não sou eu a imagem  que vejo refletida no espelho. É  a de um velho, de rosto cansado , olhos perdidos   quase embaçados. Mãos que ainda  não começaram a receber a visita do tempo, mas que não são mais tão ageis como outrora. O esqueleto  cansado parece não querer suportar  o  pesado fardo dos anos vividos. Que anos vividos ? Os pés cansados  de ter andado tanto  por esta Terra; por ter sido  pisado , chutado e chutando , de ter dado topadas , de ter colocado os pés em poças , fugido dos carros que teimam  em jogar água  nos passantes. Realmente  aquele rosto  que me fita do outro lado do espelho  não sou eu; não pode ser eu. Me pergunto  onde foi parar  aquele olhar  que pretendia mudar o Mundo ? Reparar as injustiças  ?Que lia Marx , Engels , Gramsci, Victor Hugo ou Zola ? Onde esta a força nos braços que iriam começar a mudança ? Antes  eu queria incendiar o Mundo  . . . Mas a idade  e o tempo queimaram os meus fósforos.  Tenho de me aceitar como um velho  que não encontra mais prazer, que não ri despreocupado  para um futuro  que não sabe , não vê , que sonhava  com um sorriso, um decote  ou um beijo roubado, escandalizado . Sou um velho, bem sei . Deixei que o tempo se fosse , escoasse como a areia da ampulheta. Não  fiz muita coisa , covarde que sou. Sonhei sim, e como sonhei ! Mas sonhar não custa nada, só ajuda o cérebro e entrsitece as pessoas . Sou assim  porque decidi ser assim, covardemente  assim , cavalheirescamente assim. Como Borges , se me fosse  dado voltar  a idade  viveria mais perigosamente  , arrostaria moinhos de vento e dragões  da maldade , cuspiria na rua, beijaria a velha prostituta, xingaria os hipócritas  e falsos moralistas , riria dos apocalípticos e dos palhaços, teria a mulher  que quisesse na cama que desejei. Tomaria mais frio, sairia no sereno, no meio da tempestade  dançando, cantando .Entraria para um partido político - se não tivesse eu fundaria-. Um partido revolucionário  anarquista  carnavalizante  e carnavalizador. Meteria em trapaças , negociatas  e outras tramóias , e riria  na cara do beleguim  que me viesse prender- porque não se prendem  homens ricos-  Seria enfim humano. Simplesmente  humano. . . Mas isso  eu não fui, isso eu nunca fui e creio  agora nunca serei. Simplesmente aguardo , sentado em minha poltrona, em frente a uma lareira, com uma caneca de chocolate  e um livro; um cobertor xadrez  e a chuva caindo lá fora. Espero o que ? Nem eu mesmo sei.  
grotius
Enviado por grotius em 16/11/2006
Código do texto: T293201

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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