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O parque, as pessoas e a eternidade

    Desde criança frequento o Aterro do Flamengo. E desde criança que escuto casos de romances diversos que ali aconteceram. Nos velhos e saudosos anos 70, teve até um caso de um travesti casar-se com um gari. Bem esta história era contada pelo meu pai. E todas as histórias contadas por este homem devem ser compensados seus absurdos. Apesar que tal romance hoje não seja absurdo. Ouvi uma senhorita, que frequenta a Augusto Severo, quando o astro reinante é a lua, que tal romance é cool e cult. Bem, estas nomenclaturas podem adaptar-se a qualquer situação hoje em dia. Mas quando ia tentar um diálogo com a bela da Augusto Severo, um carro já encostara. Lembro só que quando o carro deu a partida, Susana pendurou-se à porta da BMW e gritou: - Viva o amor!
 
     Existe uma figura curiosa no parque do Flamengo. Major. Sim, Major é seu nome ou apelido. Ele tem um cachorro vira-lata. Minha filha na sua inocência dos 10 anos - percebam que a inocência dos XXI é diferente dos XX - disse-me que o vira-lata se chama Mister Baker. Bem, o Major e Mr. Baker costumam deitar-se juntos no gramado e olhar para o céu azul carioca. Certa vez, Mr. Baker se zangou com um pit-bull. Foi hilário. O pit-bull parou, olhou para Mr. Baker e Major, abaixou os olhos e pude ver um sorriso sarcástico pit-bullniano. O Major fez festa com Mr. Baker dizendo que o pit-bull amarelara. Eu falava da inocência dos XXI. Sim, enquanto o Major fazia festa, Mr. Baker permanecia sério e intato. O pit-bull virou-se e prosseguiu o seu passeio. Minha filha me contou que certa vez, uma poodle chamada Branca passeava no monumento ao jovem Estácio, lá no fim da Praia do Flamengo. Quando Mr. Baker a viu, foi paixão a primeira vista. Branca levantou sua cabecinha e contemplou seu admirador. Mr. Baker era um vira-lata, mas tinha pose aristocrática. Esta aristocracia, segundo Bruna, foi ensinada pelo Major. Deitado a alguns passos da bela Branca, estava um pit-bull, chamado Thor. O mesmo pit-bull do sorriso sarcástico. Quando Mr. Baker aproximou-se de sua musa, ouvira uma conversa diabólica. Um tanto bizarra, pois os donos de Branca e Thor já negociavam um casamento em breve. Casamento que consistia numa experiência, ou seja, um pit-poodle. Branca prometeu amar Mr. Baker toda a eternidade e Mr. Baker olhou para os céus e percebeu pela primeira vez que neste mundo o amor jamais é respeitado, sempre vilipendiado pelos mais sinistros objetivos. Mr. Baker prometeu a si mesmo nunca mais se apixonar. Nem mesmo o Major soube deste romance, apenas Mr. Baker, Branca e o malvado Thor.
 
     Uma das cenas mais bonitas que já contemplei neste parque aconteceu num certo dia. Um homem jogava sozinho basquete. Uma mulher sentada no banco. A cada cesta que ele convertia, a bela dama de chapéu batia palmas, jogava-lhe beijos, dava-lhe seu melhor sorriso. Num arremesso mais forte a bola batera no aro e viera cair sob meus pés. Pegara a bola e segui em direção aquele homem. Dei-lhe a bola e olhei em seus olhos. Pude ver naqueles olhos sexagenários uma vida pulsante de amor, de calor e de paixão. - Obrigado, jovem! Gostaria de jogar com este velho? Não pude recusar. Jogamos um pouco e depois ficamos contemplando duas belas mulheres, que a cada cesta batiam palmas, jogavam-nos beijos, davam-nos seus mais belos sorrisos. Foi quando pude, de novo, experimentar a beleza da vida.
 
     Num sábado chuvoso, voltávamos para casa. Vi ao longe, ali na Machado, um homem e uma mulher sexagenários apaixonados pela vida, de mãos dadas entrando na Gourmet. Debaixo duma árvore, com um olhar triste, vi Mr. Baker e seu amigo, o Major. Vi também um homem que queria ser mulher de mãos dadas com um gari. Vi Susana sentada no capot duma BMW sorrindo o sorriso da comédia desta vida. E, por fim, porém o mais delicioso, vi minhas duas mulheres, destinadas a mim por Deus, com aqueles sorrisos que nos fazem crer que Deus também ama, na vida após a morte, na eternidade. Ah, este parque é eterno!
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 17/11/2006
Código do texto: T293683

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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