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               Relâmpagos e trovões

        Esta semana, fui acordado por uma escandalosa trovoada e estranhei. Em novembro, não chove nem troveja em Salvador. É sol puro.
           Na Bahia, fora da estação das procelas, a trovoada pra valer é no dia 4 de dezembro. É a tradicional trovoada de Santa Bárbara, para os católicos; de Iansã, para o pessoal do candomblé.
          O dia de Santa Bárbara, ou de Iansã, é, também, o dia dos bons carurus em Salvador. 
           Sobre o caruru, devo dizer que, segundo os terreiros, é a comida preferida de Cosme e Damião, os santos gêmeos.
            Por causa do quiabo, detesto caruru. 
            Homenageio os dois santos médicos comendo vatapá e xinxim de galinha, quitutes que também fazem parte do respeitado "caruru de São Cosme"; é o que me garantem as queridas baianas do acarajé, quando visito seus tabuleiros, no largo de Amaralina.
           Mas comecei dizendo, que, em plena madrugada, fora acordado por uma escandalosa trovoada. 
            Lembro-me que saltei da minha rede pensando que estava em Bagdá. Quem me viu acordando, completamente atordoado, espalhou que eu gritava:
            - "È a guerra! É a guerra! E, aflito, perguntava: "Cadê Saddam? Cadê Saddam?"  É mentira!

            Desperto, vi, da janela do meu quarto, pendurado no quinto andar do Edifício Jardim Paulista, que sobre meu bairro desabava um violento toró.
            Chovia muito na Pituba.
            Interessante: pouquinho antes da meia-noite, quando me preparava para dormir, vasculhara o céu de Salvador e não vira, como dizia Rachel de Queiroz, "nuvens chuvedeiras" . 
            O Cruzeiro do Sul brilhava com rara intensidade.
            Até a "Intrometida", normalmente uma estrela discreta,  mostrava-se mais enxerida do que nunca.
           Seguindo um velho costume, fizera uma breve oração diante do Cruzeiro, encerrando mais um dia de aposentado. 
           O tempo mudara e com a madrugada  vieram os relâmpagos, os trovões, e um preocupante pé-d´água.

           Confessei, n´alguma crônica, que morro de medo de relâmpago e de trovão. Embora tenha ouvido, muitas vezes, dos sapientes matutos do sertão do Ceará, que "feliz de quem ouve o trovão". O perigo estaria, pois, no relâmpago.

            Meninote, li que o trovão era "obra do satanás".
            Dizia o conto de um tal Henri Pourrat, que o demônio, numa disputa com Javé, fizera o trovão, com o objetivo de mexer com os filhos de Deus, testando-lhes a Fé em Javé. 
            Mas Jeová - prosseguia Pourrat -, mais astuto do que o demo, dera o troco, criando o relâmpago.
            Apressando-se o Criador em avisar a satã, que assim agira, para que as criaturas, antes do estouro do trovão, a Ele recorressem...

             Se o relâmpago é uma invenção de Deus, por que temê-lo? Confesso, que ao longo dos anos venho me esforçando para vê-lo como um espetáculo do  Divino e estou quase conseguindo.
            Mas, no céu, no inferno, ou aonde eu chegar,  armarei o maior barraco se morrer fulminado por um raio maroto, em dia de tempestade.
           OK, Javé? 



Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 17/11/2006
Reeditado em 02/03/2009
Código do texto: T294075
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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