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As abelhas de Sampa

Hoje acordei cedo. Precisava tirar dinheiro no caixa eletrônico e rumar para o trabalho. Pois bem, acordei (mesmo que a contragosto), tomei meu banho, escovei meus dentes, “engoli” um Yakult (dizem que faz um bem danado), dei um jeito na cara amassada, peguei minha mochila e fui para a tortura diária. Enganam-se os que pensaram ser o meu trabalho a tortura diária. Falo aqui da espera do elevador. Sim porque, até chegar ao meu andar são 23 andares de paradas, descidas e subidas... Pois bem, todos os dias aquele Ser lá de cima, que não sei quem é e que às vezes ri da minha cara, testa minha paciência com tamanha desenvoltura que chego a desconfiar que sua diversão seja “tirar uma com a minha”.

Passada a tortura da espera, eis que o elevador finalmente chega em meu andar e, como era de se esperar, encontro alguns paulistanos de cara amarrada (definitivamente, o melhor de São Paulo não são eles), amassada e, porque não dizer, com o humor à flor da pele (deve ser a segunda-feira...). Não, não me intimidei, e soltei um Bom Dia! à moda interiorana, com direito a sorriso e tudo! Não obtive resposta, whatever...

Passando pela recepção do prédio (existe outro nome para isso?), deparo-me com nosso zelado e prestativo zelador (o próprio nome já diz), esse sim, com um sorriso parecido com o de criança em manhã de Natal. O meu bom dia, enfim, foi retribuído! Lá fora o Sol já dava sinais de vida, e eu, como boa rio-pretense que sou, pus-me a saudá-lo, com toda a minha inocência e alegria de ser. É, creio que ele também me retribuiu o bom dia, afinal, está lá até agora sorrindo para mim. Já a caminho da rua pude constatar que essa semana será curta. O feriado na quarta-feira já mostra as garras, e nem os taxistas da frente do prédio, que todos os dias insistem em me perguntar se preciso do serviço prestado por eles, me abordaram. Achei estranho, mas compreendi, afinal, mais um dia de descanso vem por aí...

O trajeto até o caixa eletrônico é curto, mas observei algumas coisas interessantes. A começar pelo dono da banca de jornal, que ria sozinho abrindo as portas de seu estabelecimento. O mendigo que, estranhamente, não me pediu uma moeda. O ponto de ônibus vazio. O gari cantando. Uma senhora com uns oito cachorros encoleirados. O segurança do bingo observando as belas moças que passavam por ali. Um cheiro de pão acabado de sair do forno. A padaria fechada. A lan house aberta. O caixa eletrônico fechado... Fechado? Como assim, fechado? É, fechado! Agora é lei dona, disse um senhor sentado à porta do mesmo. “Agora é lei, e essas máquinas de soltar dinheiro só podem abrir após as 08:00 horas”. Vê se pode, pensei eu... Um caixa 24 horas, que só abre as 08:00 da manhã. Diante de toda a minha frustração, olhei para o céu, já na ânsia de colocar a culpa em alguém, quando, para meu espanto, deparo-me com um enxame de abelhas, prontas a “construir” mais uma colméia... Olha! – exclamei – ainda existem abelhas em São Paulo! E aí então tudo fez sentido, e como num passe de mágicas percebi que as abelhas eram as causadoras de todo o estranhamento dessa segunda-feira nodorrenta...
Bruna Pattiê
Enviado por Bruna Pattiê em 17/11/2006
Reeditado em 03/08/2007
Código do texto: T294081

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Sobre a autora
Bruna Pattiê
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
150 textos (12755 leituras)
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Bruna Pattiê