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CENTENÁRIO FESTIVO



                     No próximo dia 29, tia Zefa estará completando 100 anos. Bem poucas pessoas, acredito, podem gabar-se de tal feito: chegar a essa idade gozando de total lucidez e com a saúde, ainda, em bom estado.

                     Tia Zefa é uma figura bastante fora do comum. Vinda de Portugal com os pais, quase menina, aclimatou-se ao Brasil sem grande dificuldade. Como os filhos eram em grande número e os recursos escassos, foi encaminhada à casa dos d'Orey, sua outra família como costumamos dizer e lá passou a vida inteira. Independente, pois vivia às próprias custas, nunca ceitou palpite alheio. Também não se casou, sequer teve namorados. Acho que não lhe fizeram falta. Sua vida foi preenchida com outros afetos: a família emprestada e a verdadeira.

                      Lembro-me bem da época em que nos visitava em Botafogo. Eu, criança, podia estar na rua entretida em alguma brincadeira, mas bastava avistá-la ao longe - altura mediana, um tanto robusta, o cabelo preso num coque - para largar o que estivesse fazendo e sair correndo ao seu encontro. Sabia que ia ganhar revistas em quadrinhos que eu adorava mais que tudo e confeitos da Kopenhagen.

                       Certa ocasião levou-me a um circo, lá para as bandas da Esplanada do Castelo. Não sei que circo era, nem se o espetáculo foi bom. O que ficou marcado foi a perda de um dente. Quando senti sua falta dentro da boca levei um susto tão grande pensando tê-lo engolido, que o caramelo que eu mastigava caiu no chão. Ah! Que alívio! Lá estava o dente pregado no caramelo. Recomendo essa técnica como melhor método para extração de dentes de leite: sem dor e sem sangramento.

                       Além de tudo isso havia, ainda, as férias passadas na casa da Avenida Koeller, em Petrópolis, onde se reunia um monte de crianças primas entre si, de idades variadas. Eu, não sei por que, recebia um tratamento diferenciado. Talvez porque fosse filha única e considerada cheia de vontades, ou porque fosse ela minha madrinha de crisma. Em qualquer das hipóteses eu é que saia ganhando. Melhor para mim.

                        Pois são assim as lembranças que guardo da tia Zefa. Da mesma forma os demais primos devem ter suas lembranças particulares e especiais, principalmente os de Além Paraíba, cidadezinha mineira onde ela terminou por fixar residência.

                        E é pra lá, para Além Paraíba, que estarei seguindo nos próximos dias a fim de comemorar esse acontecimento inédito com muita festa e com todo o carinho que ela merece.


                                     Novembro - 1996




                       
HLuna
Enviado por HLuna em 19/11/2006
Código do texto: T295191
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
HLuna
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